Não há sinal de adesão do presidente a um programa de racionalização e moderação da despesa; essa adesão é ainda menos provável quando se discutem estratégias para as eleições
Consumidores ganharam um respiro em maio, quando a inflação mensal ficou em 0,26%, bem abaixo da registrada em abril, 0,43%, mas ainda enfrentaram os efeitos da forte alta de preços acumulada desde o ano passado. O custo de vida subiu 5,32% em 12 meses e 2,75% de janeiro a maio.
Apesar de algum avanço, o País continua distante da meta oficial — 3% ao ano, com limite de tolerância de 4,5% —, apesar do prolongado aperto de crédito imposto pelo Banco Central (BC).
Famílias e empresas suportam desde o fim de 2024 juros básicos superiores a 12% ao ano. Em março deste ano a taxa foi elevada a 14,25% e em maio bateu em 14,75%, voltando ao nível de julho de 2006.
Apesar dos juros elevados e, portanto, do crédito muito caro, a economia tem crescido, mas os preços, apesar de algum recuo, continuam preocupantes. No mercado, a mediana da inflação projetada para 2025 ainda ficou em 5,44% no começo do mês, segundo o boletim Focus divulgado na última segunda-feira, 9. Quatro semanas antes a estimativa apontava 5,51%.
Alguns poderão atribuir esses números a um jogo especulativo, mas a especulação, componente rotineiro dos mercados, dificilmente se prolonga sem algum suporte nos fatos.
No Brasil, projeções de inflação longe do centro da meta e até acima do limite de tolerância têm sido frequentes, mesmo quando o câmbio é bem comportado e as condições do mercado parecem razoáveis. Há um fator quase permanente de insegurança, quando se tenta avaliar a evolução provável do conjunto de preços.
Esse fator é a política fiscal, isto é, a gestão das contas públicas. Essa política oscilou no último quarto de século e até chegou, em alguns períodos, a ser conduzida com prudência e com alguns lances positivos de inovação. Mas a condução das finanças federais voltou a ser um fator importante de preocupação, depois de dois anos de aparente segurança e apesar dos bons propósitos enunciados pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva jamais seguiu com persistência, no atual mandato, padrões de prudência financeira, nem parece ter dado grande atenção às primeiras propostas de ajuste formuladas pelo ministro.
A ideia inicial do ministro — buscar racionalização e austeridade — foi substituída por um pacote de tributos. Mas também esse caminho foi inviabilizado, depois das críticas de empresários do agro e da construção civil e também dos presidentes da Câmara e do Senado.
A busca do remédio para as finanças federais acabou virando um empreendimento conjunto do Executivo e do Congresso, sob a vigilância de entidades do setor privado.
Não há sinal, no entanto, de adesão do presidente da República a um programa de racionalização e moderação da despesa. Difícil em outras ocasiões, essa adesão é ainda menos provável quando se discutem estratégias para as eleições do próximo ano.
No Brasil, contas públicas inseguras são fatores tradicionalmente associados a riscos de inflação e de juros altos.
O presidente da República poderá atenuar esse conjunto de riscos se der alguma atenção às advertências dos ministros econômicos e dos técnicos do mercado.
Relaxar os cuidados com a inflação, agora, com a vaga intenção de tratar do problema depois da disputa eleitoral, pode custar muito para os brasileiros, especialmente para os pobres, mais vulneráveis aos desarranjos de preços.