Supermercados simulam escala 5×2 e admitem repasse de custos

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Supermercados brasileiros aceleraram, em 2026, as simulações da escala 5×2, cinco dias de trabalho e dois de descanso enquanto a discussão política sobre o fim da 6×1 ganha tração em Brasília e chega ao cotidiano das lojas.

O que está em jogo na virada da 6×1 para a 5×2

A mudança parece simples no papel: trocar a rotina de seis dias trabalhados por um de folga por um modelo com dois dias de descanso na semana. Na prática, para um setor que funciona todos os dias e lida com picos de movimento, ela mexe no coração da operação: escala de caixa, reposição, açougue, padaria, limpeza, recebimento de mercadorias e logística.

O assunto voltou ao centro do debate nesta semana, depois de declarações de Marcio Milan, vice-presidente da Abras (Associação Brasileira de Supermercados), de que uma mudança sem discussão ampla pode elevar custos e, se isso ocorrer, a pressão tende a chegar aos preços. Ele resumiu a posição do setor com um argumento comum no varejo alimentar: o supermercado não “forma” preço sozinho; se o custo sobe, há repasse possível ao consumidor. Também disse que o tema vem sendo acompanhado desde o fim de 2024 e já motivou estudos internos e testes por empresas do ramo.

A discussão, ao mesmo tempo, deixa de ser apenas teórica. Redes já estão testando a escala 5×2, e parte dessas experiências envolve reorganizar horários, redimensionar equipes e redesenhar a cobertura de fim de semana , exatamente onde mora uma das maiores dúvidas sobre custo e serviço.

Como a escala 5×2 costuma funcionar no varejo (e por que isso mexe no custo)

Nas experiências relatadas no setor, o modelo 5×2 não significa, necessariamente, trabalhar menos horas na semana. Em casos citados por entidades e reportagens, a referência é manter a jornada semanal prevista em lei e “concentrar” as horas em cinco dias.

Um exemplo recorrente é a jornada semanal de 44 horas ser mantida, mas distribuída em jornadas diárias mais longas na prática, perto de 8 horas e 48 minutos por dia, em vez de algo próximo de 7 horas e 20 minutos numa escala 6×1 tradicional. Isso já sinaliza por que a conta pode ficar mais complexa: turnos mais longos exigem encaixes de intervalo, trocas de equipe, cobertura em horários de pico e maior planejamento para evitar “buracos” na loja.

Além disso, a operação de supermercado tem particularidades que pesam no orçamento:

  • Finais de semana e feriados concentram movimento e demanda por equipe;
  • há funções que dependem de treinamento específico (açougue, padaria, prevenção de perdas);
  • muitas lojas usam banco de horas e ajustes finos na escala para segurar horas extras.

Se a escala 5×2 levar, em parte das lojas, a mais contratações para cobrir os dois dias de folga, ou a mais horas extras para manter o mesmo nível de serviço, o custo sobe. E o ponto levantado pela Abras é que, numa cadeia com margens apertadas e preços disputados diariamente, a tendência é tentar repassar o aumento ainda que isso não aconteça de forma uniforme em todos os itens.

Testes em redes: o que já mudou no dia a dia das lojas

O debate nacional ganha força porque redes começaram a colocar a escala em prática e a divulgar resultados operacionais (ainda que, em geral, sem abrir números detalhados). No interior de São Paulo, por exemplo, o Grupo Savegnago testou a escala 5×2 em uma unidade piloto em Indaiatuba no fim de 2025 e previu a ampliação do modelo para suas lojas a partir de fevereiro de 2026. O Paulistão Atacadista também aparece como rede com aplicação do formato em cidades como Barretos, Sertãozinho e Franca.

Nesse tipo de implementação, a promessa é dupla: dar dois dias de descanso ao trabalhador o que tende a melhorar retenção e reduzir desgaste e, ao mesmo tempo, manter a loja aberta inclusive aos fins de semana, sem perda de serviço ao cliente.

Outra adaptação concreta aparece em relatos de reorganização de horário. A rede de supermercados Pague Menos, citada em reportagem, fez ajustes para acomodar o novo arranjo: parte das lojas deixou de operar aos domingos, e outra reduziu o horário dominical (de 7h às 20h para 8h às 18h). Esse detalhe é importante porque mostra um dilema prático: quando a equipe ganha mais descanso, a empresa pode tentar compensar com contratações e rearranjos ou, em alguns casos, com redução de horários em dias menos rentáveis.

Ou seja: a escala 5×2 não é um “botão liga/desliga”. Ela pode vir acompanhada de mudanças no funcionamento, dependendo do perfil da loja, do bairro, do tamanho da equipe e do peso das vendas de domingo.

Por que o risco de repasse preocupa: a ponta sensível é o preço dos alimentos

Quando o setor fala em repasse, o incômodo do consumidor é imediato: supermercado é onde a inflação se materializa com rapidez. Mesmo pequenas alterações no custo de operação podem virar tema de conversa quando aparecem no cupom fiscal.

Mas é preciso entender a lógica do varejo alimentar. O supermercado negocia com indústria, distribuidor e produtores; paga aluguel (em muitos casos), energia, perdas, logística e folha de pagamento. Se a mudança na escala elevar a despesa com pessoal, a empresa pode buscar alternativas antes de mexer em preços: melhorar produtividade, reduzir rotatividade, reorganizar turnos, revisar sortimento, renegociar com fornecedores e enxugar desperdícios.

O que a fala da Abras coloca no radar é o cenário em que essas medidas não bastam e aí o aumento acaba entrando no cálculo final. Nem sempre isso vira reajuste “linear” na loja. Em geral, o repasse pode ocorrer de maneiras diferentes, como menor agressividade em promoções, ajustes em categorias com mais margem ou recomposição de preço em itens menos sensíveis à concorrência local.

Também há um fator de percepção: se o consumidor encontra a loja mais cheia, com menos caixas abertos ou reposição mais lenta, a cobrança não é só pelo preço é por serviço. Por isso, parte das redes trata o tema como equilíbrio delicado entre custo, experiência e capacidade de manter equipes estáveis.

O pano de fundo: pressão no Congresso e disputa por mão de obra

A discussão deixou de ser restrita a negociações pontuais e passou a orbitar projetos e propostas em tramitação. Nesta quinta-feira (26), o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), voltou a defender a proposta que mira o fim da escala 6×1 e disse considerar “muito viável” a aprovação no plenário, desde que a tramitação seja conduzida com responsabilidade e ouvindo os setores impactados.

Do lado sindical, a pressão se intensificou. Entidades como a UGT e lideranças como Ricardo Patah, que preside o Sindicato dos Comerciários de São Paulo e a própria UGT, têm defendido a migração para a 5×2 e citam o desgaste físico e social do modelo 6×1 como um fator que afasta trabalhadores do setor.

Esse ponto conversa com outro problema citado em reportagens: a dificuldade de preencher vagas no varejo. Em um mercado em que a competição por mão de obra se tornou mais dura, oferecer dois dias de descanso pode ser, ao mesmo tempo, uma pauta de bem-estar e uma estratégia de contratação e retenção.

O que ainda falta saber (e por que “dados atuais” são difíceis de fechar agora)

Apesar de já haver casos em andamento, ainda não existe um retrato único e consolidado sobre o impacto da escala 5×2 em custos e preços, por um motivo simples: o efeito depende do desenho escolhido por cada rede e da realidade de cada praça.

Uma loja de bairro, com movimento concentrado em horários específicos, pode ajustar melhor a escala do que uma unidade de grande fluxo, com operação intensa do início da manhã à noite. Regiões com mais concorrência também têm menos espaço para repassar aumentos o que obriga a buscar eficiência antes de qualquer ajuste de preço.

Além disso, “custo” não é só contratar mais. Entram na conta fatores como:

  • curva de aprendizado de novos funcionários;
  • necessidade de lideranças para coordenar turnos maiores;
  • mudanças em processos internos para evitar perdas e filas;
  • impacto em saúde e absenteísmo, que pode melhorar ou piorar, se a jornada diária mais longa for mal desenhada.

É por isso que empresas falam em projetos-piloto e estudos internos: a transição exige testar com cuidado o que funciona para manter dois objetivos simultâneos descanso maior para o trabalhador e serviço estável para o cliente sem transformar a ida ao mercado em uma experiência pior (ou mais cara) no mês seguinte.

No curto prazo, a tendência é que mais redes façam exatamente o que as pioneiras já fizeram: experimentar em unidades específicas, ajustar horários e medir efeitos no caixa, na operação e na rotatividade. No médio prazo, se o debate no Congresso avançar, o setor deve ampliar a pressão por uma transição que considere particularidades do varejo e abra espaço para adaptação gradual.

Fonte : https://gazetainterior.com.br/variedades/m/supermercados-simulam-escala-5×2-e-admitem-repasse-de-custos.0cbsi

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