Varejo brasileiro mantém trajetória de alta em agosto, mas crédito ainda limita consumo

Economia

Índice do Varejo Stone mostra terceiro mês consecutivo de crescimento, com avanço de 1% no varejo restrito e alta de 6,7% em relação a agosto de 2025

O varejo brasileiro manteve em agosto a trajetória de recuperação iniciada em junho, registrando o terceiro mês consecutivo de crescimento. De acordo com a 44ª edição do Índice do Varejo Stone, o índice restrito avançou 1% em agosto, na comparação mensal com ajuste sazonal, enquanto o índice ampliado cresceu 0,5%. Na comparação com agosto de 2025, os avanços foram de 6,7% e 7%, respectivamente.

O desempenho, contudo, ocorre em um cenário de recuperação gradual. Embora a atividade varejista permaneça acima dos níveis registrados em 2025, o ritmo de expansão vem desacelerando mês a mês. Entre os fatores que sustentam o consumo estão a resiliência do mercado de trabalho e o avanço da renda. Em julho, a taxa de desemprego ficou em 5,3%, enquanto a massa de rendimentos do trabalho chegou a aproximadamente R$ 383 bilhões. O rendimento real médio habitual dessazonalizado alcançou R$ 3.918, alta de 3,4% em relação a julho de 2025.

Renda sustenta consumo, enquanto crédito impõe limites

O levantamento identifica uma diferença importante no comportamento do varejo: enquanto os segmentos mais sensíveis à renda apresentam desempenho mais robusto, aqueles dependentes de crédito avançam em ritmo mais moderado.

O comprometimento da renda das famílias com o serviço da dívida atingiu 28,9% em junho, o maior nível da série histórica e 1,7 ponto percentual acima do registrado no mesmo mês de 2025. Ao mesmo tempo, o crédito às pessoas físicas desacelerou, enquanto os juros reais permanecem próximos de 9% ao ano.

Essa diferença aparece nos resultados dos segmentos. Os setores sensíveis à renda cresceram 1,3% em agosto e acumulam alta de 8,4% em 12 meses. Já os segmentos mais dependentes de crédito ficaram estáveis no mês e acumulam crescimento de 5,4% em 12 meses. Desde dezembro, os primeiros avançaram 6,9%, contra apenas 1,4% dos setores dependentes de financiamento.

Combustíveis e supermercados lideram crescimento

Entre os oito segmentos analisados, cinco registraram crescimento mensal em agosto. Combustíveis e Lubrificantes apresentaram a maior alta, de 2,7%, seguidos por Hipermercados e Supermercados, com avanço de 1,6%. Na outra ponta, Livros, Jornais, Revistas e Papelaria registraram queda de 2,5%.

Combustíveis e Lubrificantes também lideraram o resultado anual, com crescimento de 15,2%. O segmento vem acelerando pelo terceiro mês consecutivo: passou de 8,6% em junho para 11,8% em julho e chegou a 15,2% em agosto. O levantamento relaciona o desempenho, entre outros fatores, à possibilidade de antecipação do consumo e a medidas de contenção de preços em meio aos problemas envolvendo o Oriente Médio e o Estreito de Ormuz.

Hipermercados e Supermercados registraram alta anual de 8,5%, mantendo três meses consecutivos de crescimento na margem. Desde dezembro, o nível dessazonalizado do segmento avançou 7,5%, acima dos 4,6% registrados pelo índice restrito.

Bens duráveis ainda sentem o custo do crédito

Entre os segmentos mais dependentes de crédito, Móveis e Eletrodomésticos cresceram 0,6% em agosto e 3,1% na comparação anual. Apesar da recuperação, o setor apresenta uma das trajetórias mais lentas: seu nível dessazonalizado avançou apenas 0,9% desde dezembro e permanece distante do patamar de 2022.

Material de Construção, por sua vez, recuou 0,8% no mês, embora tenha apresentado crescimento anual de 7,8%. O segmento atingiu em julho o topo de sua série dessazonalizada e, mesmo sendo bastante dependente de crédito, apresenta demanda que pode estar sendo sustentada por fatores específicos do setor.

Já Tecidos, Vestuário e Calçados avançaram 0,6% no mês, interrompendo dois meses de queda, mas permanecem como o único segmento abaixo do nível de 2025, com retração anual de 3,5%. Artigos Farmacêuticos recuaram 0,3% em agosto, mas acumulam alta de 5,1% em 12 meses.

Norte apresenta maior crescimento regional

O desempenho positivo também foi disseminado pelo país. Na comparação anual, apenas Rio Grande do Sul (-1,6%) e Espírito Santo (-0,4%) registraram queda em agosto. Todas as demais unidades da Federação apresentaram crescimento.

A região Norte registrou o maior crescimento médio, de 10,4%, seguida por Nordeste e Centro-Oeste, ambos com 5,1%. O Sudeste avançou 4%, enquanto o Sul apresentou crescimento médio de 2,3%. Entre os estados, o Amazonas teve alta de 21,8%, seguido por Acre, com 12,8%, e Tocantins, com 11,4%.

São Paulo lidera no Sudeste

No recorte regional, São Paulo registrou crescimento de 6,7%, enquanto o Rio de Janeiro avançou 4,9% e Minas Gerais, 4,8%. O Espírito Santo foi o único estado do Sudeste a apresentar queda, de 0,4%.

O desempenho fluminense, assim como o observado em outras partes do Sudeste, combina a sustentação proporcionada pela renda com as limitações impostas pelo endividamento e pelo custo do crédito. O segmento de combustíveis, que cresceu 15,2% nacionalmente, também é apontado como possível contribuição positiva para o resultado do Rio de Janeiro.

Efeito dos juros deve aparecer com mais força em 2027

O cenário para os próximos meses é de continuidade da recuperação, mas ainda de forma gradual. A Selic passou de 15% para 14% ao ano após quatro cortes consecutivos de 0,25 ponto percentual iniciados em março de 2026. A mediana do Focus citada no levantamento projetava a taxa em 13,75% ao final do ano.

Segundo o Índice do Varejo Stone, os efeitos da redução dos juros sobre o crédito devem ocorrer com defasagem. Por isso, o impacto mais relevante do ciclo de flexibilização monetária sobre segmentos como Móveis e Eletrodomésticos e Material de Construção é esperado para 2027.

O cenário traçado pelo levantamento, portanto, é de um varejo que segue crescendo, sustentado principalmente pela renda e pelo consumo de bens essenciais, mas que ainda encontra no endividamento das famílias e no custo do crédito obstáculos para uma recuperação mais ampla e uniforme.

Fonte : https://www.ecommercebrasil.com.br/

O Sincovaga Notícias é o portal do Sincovaga SP, que mantém parcerias estratégicas com renomados veículos de comunicação, replicando, com autorização, conteúdos relevantes para manter os empresários do varejo de alimentos e o público em geral bem informados sobre as novidades do setor e da economia.