Tradicionalmente marcado pela escala 6×1, o varejo alimentar passa a testar novos formatos de jornada em resposta a mudanças no mercado de trabalho e à dificuldade crescente de atrair e reter profissionais. A escala 5×2 ganha força nesse cenário dentro das lojas físicas e reacende um debate que envolve produtividade, qualidade de vida e competitividade.
No Pague Menos, a decisão de testar a nova jornada surgiu no final de 2025. “Nosso objetivo era aumentar a atratividade na contratação de pessoas, melhorar a retenção de colaboradores, reduzir o turnover e atender gradualmente uma busca do mercado de trabalho e de gerações mais novas”, conta Fernando Carneiro, diretor de Gente e Gestão da empresa.
Atualmente, a empresa possui 40 unidades em 21 cidades do interior paulista, sendo que 8 delas vão operar com a escala 5×2 com 1×1 aos domingos até o fim de abril.
“Inicialmente, temos priorizado cidades de menor porte para testar a receptividade dos colaboradores, clientes e a eficiência operacional. Em grandes centros como Campinas, vamos aguardar os aprendizados das demais localidades, pois a competitividade e os hábitos de consumo são diferentes”, explica Carneiro.
O executivo também afirma que a percepção inicial é positiva. “Apesar de recente, observamos um aumento relevante da captação de candidatos e redução significativa dos índices de turnover e absenteísmo, bem como de horas extras. Em paralelo, há uma redução dos custos com refeição e vale-transporte.”
“Quando se anuncia no mercado a captação de candidatos para a escala 5×2, a procura de mais do que dobra” – Fernando Carneiro, diretor de Gente e Gestão do Pague Menos
A implementação da nova jornada exigiu ajustes operacionais, principalmente em períodos de maior movimento nas lojas. Segundo o executivo, a reorganização da rotina foi necessária para garantir a continuidade das atividades.
“A carga horária mensal da escala 6×1 e a 5×2 é a mesma, pois há um acréscimo na jornada diária de 7h20 para 8h48, mantendo as 44 horas semanais. A operação precisou adaptar algumas rotinas de inventário e recebimento, para se adequar ao quadro disponível a cada dia da semana”, detalhou Carneiro.
O diretor também contou que aos fins de semana e em dias de promoção, a empresa tem usado a estratégia do complemento pontual de quadro com a mão de obra intermitente.
“Também temos associado a implementação da escala 5×2 com a redução do horário de funcionamento aos domingos das 8 às 18 horas. Isto permite um melhor encaixe da escala com as folgas aos domingos no regime 1×1.”
Debate deve continuar no varejo
A adoção da escala 5×2 ainda é considerada um movimento inicial no varejo brasileiro, mas indica uma possível transformação na forma como empresas estruturam jornadas de trabalho em atividades presenciais. A combinação entre escassez de mão de obra, mudanças nas expectativas profissionais e discussões regulatórias tende a manter o tema em evidência nos próximos anos.
Para as empresas, o desafio envolve equilibrar eficiência operacional, custos e experiência do consumidor, garantindo que a reorganização das jornadas não comprometa o funcionamento das lojas. Já para os trabalhadores, a possibilidade de maior previsibilidade de folgas e melhor conciliação entre vida pessoal e profissional aparece como um fator relevante na escolha de emprego.