Desperdício e rastreabilidade: os dois pilares que definem o novo varejo alimentar

O desperdício de alimentos no varejo deixou de ser apenas uma questão operacional e hoje é um indicador direto de eficiência, sustentabilidade e responsabilidade corporativa. Um produto que vence na gôndola carrega o custos financeiro e o reputacional. Por isso, a gestão da validade tornou-se o maior desafio estratégico do setor, superando, inclusive, as complexidades do planejamento de compras ou da tradicional curva ABC.

No varejo alimentar, o desperdício começa a ser evitado antes mesmo da chegada do produto à loja. Inteligência de mix e curadoria de dados são determinantes para que cada unidade opere com um portfólio ajustado ao seu perfil demográfico e ao comportamento de consumo local. Não se trata de ter todas as marcas, mas de ter o mix correto. Quando a oferta está alinhada à demanda real, o estoque gira no ritmo certo, reduzindo estagnação e perdas.

Na operação diária, disciplina é palavra-chave. O método PVPS (Primeiro que Vence, Primeiro que sai) é inegociável, pois garantir que os produtos com validade mais próxima estejam na linha de frente da gôndola é um ajuste simples, mas de impacto direto sobre a preservação do inventário. Quando incorporada à cultura da equipe, essa prática transforma a rotina da loja e consolida uma mentalidade de responsabilidade compartilhada.

Agora, quando existe o setor de granel, há um desafio adicional, pois este segmento exige um olhar técnico e especializado. Preservar a integridade sensorial e nutricional dos alimentos implica combater oxidação, umidade e contaminação cruzada com rigor científico. Tem-se de pensar no armazenamento refrigerado para ampliar significativamente a vida útil dos insumos. Usar potes com vedação de silicone e utensílios exclusivos para cada item, reduzindo a umidade, principal vilã de oleaginosas e farinhas, e reforçando o controle sanitário, como realizar dedetizações semanais em todas as unidades, para garantir um ambiente seguro e para minimizar qualquer risco de perdas por pragas.

Quando um produto entra nos três meses finais de validade, deve-se ativar o fracionamento estratégico. Em vez de descarte, criar oportunidade, como, por exemplo, realização de descontos, transformando o que seria perda em acesso. Esses itens também podem compor kits promocionais ou serem utilizados em degustações guiadas dentro da loja, convertendo um potencial desperdício em experiência educativa e sensorial. Assim, o ciclo de vida do produto é gerenciado com responsabilidade e inteligência comercial.

Se o desperdício representa o primeiro grande pilar do varejo moderno, a rastreabilidade é o segundo. O consumidor atual quer mais do que preço e conveniência; ele busca transparência. O valor de um produto está diretamente ligado à sua origem e à segurança que ele oferece.

Nesse contexto, a curadoria de marcas é estratégica, com o objetivo de assegurar pureza, biodisponibilidade e padrão farmacêutico de qualidade. A rastreabilidade permite que o consumidor valide, na prática, a promessa do rótulo, e esse processo pode ser realizado por meio de selos internacionais, como o IFOS, que possibilitam que o cliente utilize o número do lote para acessar diretamente o laudo laboratorial de pureza. Da mesma forma, assegurar que uma proteína é proveniente de gado alimentado a pasto ou que determinado superalimento foi cultivado em seu habitat ideal não é apenas argumento de marketing: é a comprovação da eficácia biológica do que se entrega.

Para garantir essa jornada com precisão técnica do campo à gôndola, sempre indico quatro frentes:

  • A primeira é a priorização de certificações de excelência, como Non-GMO, Orgânico Brasil, IBD e ISO 9001, que funcionam como auditorias permanentes da cadeia produtiva.
  • A segunda é o monitoramento digital por meio de um sistema de ERP que acompanha cada lote desde o Centro de Distribuição até o cupom fiscal emitido na loja, permitindo respostas rápidas e cirúrgicas em casos de recall.
  • A terceira envolve inovação aplicada à experiência do consumidor, com QR Codes nas embalagens que conectam diretamente a laudos de pureza e informações de procedência.
  • A quarta é a formação de consultores especializados, capazes de traduzir dados técnicos em orientação acessível e confiável.

No varejo alimentar contemporâneo, eficiência operacional e transparência não competem entre si: elas se complementam. Reduzir desperdício protege margens e fortalece compromissos ambientais. Garantir rastreabilidade consolida confiança e reputação. Juntas, essas frentes constroem um modelo de negócio mais sustentável, resiliente e alinhado a um consumidor cada vez mais informado e exigente.

O futuro do setor não será definido apenas por expansão de lojas ou aumento de portfólio, mas pela capacidade de integrar gestão, tecnologia e propósito em cada etapa da cadeia. Desperdício e rastreabilidade deixaram de ser temas operacionais. Tornaram-se critérios centrais de competitividade no novo varejo alimentar.

Edmar Mothé é fundador da Bio Mundo.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consu

Imagem: Freepik

Fonte: Desperdício e rastreabilidade: pilares que definem o novo varejo / https://mercadoeconsumo.com.br/

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