Quanto custa o fim da 6×1? Simulamos em 8 lojas reais e a resposta varia 7 vezes

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Rodamos a transição completa da escala 6×1 para a 5×2 em 8 lojas reais de varejo alimentar, fase a fase, com a demanda (necessidade de pessoas) medida em cada uma delas. O impacto no custo variou de +1,7% a +11,6%. O texto abaixo relata o que os números mostraram, e o que decide o tamanho do impacto que sua operação pode ter.

Na semana passada, gigantes dos supermercados e das farmácias anunciaram o fim da escala 6×1 para parte dos seus times. Antes da lei. A PEC que reduz a jornada foi aprovada na Câmara por ampla maioria e segue parada no Senado, mas o mercado não esperou: as duas folgas semanais viraram arma de contratação na disputa por operador de caixa, repositor e atendente.

Enquanto isso, o varejista que pergunta “quanto isso vai custar para mim?” recebe respostas desencontradas. O IPEA fala em custo adicional abaixo de 1%. A CNI estima 7% de aumento médio na folha. A FecomercioSP fala em algo próximo de 10%. A CNC projeta 21% na folha do comércio. Instituições sérias, divergindo entre si.

Nós decidimos fazer as contas. Como ninguém fez até agora.

Pegamos 8 lojas reais de uma mesma operação de varejo alimentar, com a demanda medida de cada uma, e simulamos a transição completa no motor de dimensionamento do Centu Quadros: a escala atual de 44 horas em 6×1 e as três fases previstas na PEC, todas em 5×2. Foram 32 simulações, sempre com a mesma função, as mesmas regras da CLT e a mesma meta de atendimento: fila de até 5% da demanda.

O resultado final: o impacto variou de +1,7% a +11,6% de custo entre as lojas. Uma diferença de 7 vezes dentro da mesma rede.

Cada número deste artigo sai de uma simulação como esta: custo, quadro, cobertura dia a dia e nível de fila, calculados para cada cenário de contrato.

A transição, traduzida em contratos

O calendário aprovado na Câmara tem dois marcos. Sessenta dias depois da promulgação, a jornada máxima cai para 42 horas e passam a valer os dois dias de descanso semanal. Doze meses depois desse primeiro corte, a jornada chega ao teto definitivo de 40 horas.

Na prática, uma loja vai atravessar até quatro configurações de contrato em pouco mais de um ano:

ConfiguraçãoJornada diáriaQuando
44 horas, 6×107:20hoje
44 horas, 5×208:48até 60 dias após a promulgação
42 horas, 5×208:24dos 60 dias aos 14 meses
40 horas, 5×208:00dos 14 meses em diante

Cadastramos os quatro contratos no sistema da Centu, com salário, custos de transporte, alimentação e encargos:

Salário igual, hora mais cara: com a mesma remuneração cobrindo menos horas, o custo/hora sobe de R$ 13,68 para R$ 15,05. A conta que vai apertar sua margem começa aqui.

Repare em dois detalhes dessa tela. Primeiro, o salário mensal é o mesmo nos três contratos 5×2, porque a PEC proíbe qualquer redução salarial. Segundo, até o dia a menos de vale-transporte por semana do 5×2 entra na conta: R$ 40 por pessoa por mês. Parece pouco, e é. A diferença de verdade está em outro lugar, e ela foi a primeira surpresa do estudo.

Descoberta 1: O empregador já não recebe as 44 horas que paga quando opera aos domingos

No papel, sair de 44 para 40 horas significa perder 4 horas semanais por funcionário, uma queda de 9%. Todas as estimativas de mercado partem dessa conta. Ela ignora como a 6×1 funciona de verdade.

Na 6×1, duas regras relacionadas a folgas convivem: (i) o colaborador pode trabalhar no máximo 6 dias seguidos, e (ii) a folga precisa cair no domingo com uma periodicidade mínima. Em operações que abrem todos os dias da semana, quando o rodízio de domingo encontra o limite dos 6 dias, o encaixe simplesmente não fecha, e a escala é obrigada a conceder folgas extras para cumprir as duas regras ao mesmo tempo.

O resultado é que um contrato de 44 horas em 6×1 entrega, na média do mês, algo em torno de 42 horas efetivas de trabalho.

Você leu certo: quem opera em 6×1 hoje já paga por 44 horas e recebe cerca de 42.

A folga fantasma da 6×1: duas regras legais que, somadas, fazem o contrato de 44 horas entregar cerca de 42.

Na 5×2, esse efeito não existe. As duas folgas semanais já absorvem o rodízio de domingo naturalmente, sem folga extra. Um contrato de 44 horas em 5×2 entrega 44 horas de verdade.

As consequências são enormes. A perda real da transição é cerca de metade da maioria das estimativas anunciadas. A migração para a 5×2 mantendo as 44 horas semanais, algo que a CLT permite que qualquer empresa faça hoje, sem esperar lei nenhuma, pode até aumentar as horas disponíveis da equipe, sem custo adicional. Não é opinião. É matemática: a mesma jornada, redistribuída em 5×2, absorve o rodízio de domingo sem sobra nem gasto extra.

Nos nossos dados, o efeito aparece com força. Em 6 das 8 lojas, a fase de 44 horas em 5×2 custou menos que a escala atual e atendeu a demanda igual ou melhor. Em 3 delas, o algoritmo da Centu conseguiu remontar a escala com menos gente no quadro.

Loja 3087, a maior do estudo: duas pessoas a menos no quadro, R$ 7,4 mil a menos por mês e a fila no mesmo nível. Ninguém foi demitido na operação real: a diferença é a escala remontada pelo algoritmo.

Descoberta 2: não existe “a conta”. Existe a sua conta.

Levamos as 8 lojas até o cenário final, o de 40 horas, sempre exigindo o mesmo nível de atendimento da demanda. O resultado:

Impacto no custo de mão de obra ao sair de 44h em 6×1 para 40h em 5×2, mantendo o mesmo nível de atendimento da demanda.

Se dentro de uma única rede a resposta varia 7 vezes, qual a chance de uma média nacional acertar a sua loja?

A Loja 1680 atravessou a transição inteira por 1,7% a mais de custo. A Loja 1678 vai pagar 11,6% a mais. Entre elas, todos os intermediários, incluindo a Loja 1679, que gastará 9,2% a mais apenas para continuar exatamente onde está hoje. Mesma rede, mesma função, mesmas regras.

Antes de ir ao motivo principal, vale isolar um efeito que se confunde fácil com ele. Parte da conta de cada loja vem de como ela já opera hoje, sem relação nenhuma com a lei. A Loja 1678, por exemplo, chega à transição com uma fila de 6,3%, já acima do aceitável na 6×1 de hoje. A primeira fase resolveu isso sem contratar ninguém, fila em 4,3% com a mesma equipe, mas esse ganho é de dimensionamento, não da transição em si. Três das 8 lojas do estudo estavam nessa situação, com fila acima da meta hoje. Provavelmente sem saber.

Descontado esse efeito, sobra a pergunta que interessa: entre lojas que já chegam bem dimensionadas, por que o custo da mesma transição varia tanto? A resposta não é o tamanho da loja, nem quanta gente ela emprega hoje. É o formato da curva de demanda de cada uma: como o movimento se distribui pelas horas do dia e pelos dias da semana decide quanto espaço a escala tem pra se reorganizar dentro da 5×2 sem sobra nem falta.

Dois retratos do estudo mostram os extremos desse efeito:

A de pico estreito. A Loja 676 tem uma demanda concentrada em poucas janelas do dia, com picos curtos e bem definidos. Isso permite uma operação eficiente hoje, na 6×1, mas deixa pouca margem de manobra: quando a 5×2 redistribui os dias de folga, o encaixe esbarra direto nesses picos. Resultado: paga a conta cheia da transição, 10,1% a mais, e mesmo assim o quadro mínimo não segura, a fila termina em 5,3%, levemente acima da meta de 5% do estudo. Vai precisar contratar além do mínimo técnico para não degradar o atendimento.

A de demanda espalhada. A Loja 1680 tem uma curva mais distribuída ao longo da semana, sem picos tão concentrados. Isso dá ao algoritmo mais graus de liberdade pra reorganizar os turnos dentro da 5×2 sem sacrificar cobertura em lugar nenhum. Resultado: a transição quase se paga sozinha, 1,7% de custo total, terminando melhor do que começou em atendimento, distribuição e ociosidade.

Descoberta 3: a média esconde a variação dia a dia

A Loja 1677 parecia o caso mais confortável do estudo. No agregado da semana, ociosidade de 21%. Gente sobrando, certo?

Errado. Quando abrimos o domingo hora a hora, apareceu uma fila de 11% concentrada entre o meio da manhã e o início da tarde. A mesma loja tinha, ao mesmo tempo, funcionário ocioso na média da semana e cliente esperando no domingo.

A mesma loja, dois dias, duas lojas diferentes. No domingo, o pico é no fim da manhã; na quinta, no fim da tarde. Escala fixa não resolve demanda que muda de formato.

A explicação está no formato da demanda. No domingo dessa loja, o movimento explode de manhã e esvazia à tarde. Na quinta, sobe devagar e o pico é no fim do dia. Uma escala montada para a “semana média” erra nos dois: sobra gente onde não precisa e falta onde dói.

Nenhuma média semanal mostra isso. Nenhuma planilha de quadro por loja captura isso. É por isso que as calculadoras genéricas, que multiplicam headcount por salário médio, erram para os dois lados: superestimam o custo em lojas com folga escondida e subestimam em lojas com demanda irregular.

O que decide no final: perfil da demanda e custo, lidos juntos

Depois de 32 simulações, o critério de decisão ficou claro, e ele é mais simples do que parece: perfil da demanda e custo, sempre lidos juntos. Nenhuma métrica isolada decide nada. Um cenário mais barato com alguma ociosidade costuma ser melhor para o varejista do que um cenário perfeitamente equilibrado e mais caro.

E nem todo ganho aparece na conta. A Loja 1678 não economizou quase nada na primeira fase, mas resolveu uma fila crônica sem contratar. Quanto vale a venda que deixava de acontecer naquela fila? Quanto vale a experiência do cliente que parava de esperar?

Existe ainda um terceiro ganho, e ele explica o movimento das grandes redes. Os supermercados paulistas acumulam 35 mil vagas abertas. Oito em cada dez empregadores relatam dificuldade para contratar. O turnover do varejo chega a 3 vezes o de outros setores. As redes que anunciaram o 5×2 nesta semana não fizeram filantropia: duas folgas semanais atraem candidato e seguram funcionário.

Quem esperar a lei para se mexer vai contratar junto com todo o mercado, disputando a mesma mão de obra escassa, no pior momento possível.

O panorama completo: as 8 lojas, lado a lado

Reunimos as 8 lojas do estudo num único quadro, do cenário atual até a fase final de 40 horas em 5×2, sempre com a mesma meta de fila de até 5%:

LojaQuadro hojeFila hojeQuadro na fase finalCusto na fase finalFila na fase finalPadrão
676344,8%38+10,1%5,3% ⚠Enxuta hoje; estoura a meta no fim
1677204,7%21+3,4%4,0%Folga escondida; domingo tem pico próprio
1678156,3% ⚠17+11,6%3,6%Fila já estourada; ganho é de atendimento
1679464,7%51+9,2%4,5%Grande; paga só pra manter o patamar
1680315,2% ⚠32+1,7%4,2%Já folgada; a transição quase se paga sozinha
1688235,4% ⚠25+7,0%3,9%Fila estourada; a fase 1 resolve sem contratar
2075164,8%18+10,8%5,0%Pequena e enxuta; paga a conta desde o início
3087554,9%59+5,6%4,4%Grande; ganha na fase 1, paga só no fim

A fila acima da meta de 5%. Três lojas já chegavam à transição nessa situação; só uma termina a fase final ainda acima dela, mesmo com o quadro reforçado.

A janela: 14 meses que começam quando você decidir

A PEC pode andar amanhã ou daqui a um ano. Isso não está no seu controle. O que está no seu controle: os dois marcos dela formam uma janela de transição de cerca de 14 meses, e quem conhece a própria conta usa essa janela a favor. Antecipa a fase de 44 horas em 5×2 onde ela é lucrativa. Programa contratações com calma onde a conta vai doer. Escolhe o timing, em vez de ser escolhido por ele. A Loja 3087 mostra por que o timing importa. Você já viu essa loja lá atrás: na fase de 44 horas em 5×2, ela ficou mais barata e mais enxuta que hoje. Mas olhando a transição inteira, do cenário atual até o teto final de 40 horas, a conta muda de sinal: custo 5,6% maior, quadro de 55 para 59 pessoas, mesmo com a fila caindo de 4,9% para 4,4%. A mesma loja economiza no meio do caminho e paga mais no final só a conta maior.

Loja 3087, do início ao fim: mais barata no meio do caminho, mais cara no final. A janela de 14 meses existe pra quem sabe onde ela é lucrativa.

O primeiro passo é saber com qual das 8 lojas deste artigo a sua se parece. E isso não se descobre com média de mercado. Se descobre gerando o quadro para a sua demanda.

Diagnóstico de Transição 6×1

A conta da sua loja existe. A gente roda em dias, não em meses.

Pegamos os dados da sua loja, rodamos os 4 cenários da transição no mesmo motor que gerou este artigo e devolvemos custo, quadro e nível de atendimento de cada fase.

Metodologia, em uma nota: 8 lojas de uma mesma operação de varejo alimentar. Função simulada: frente de caixa. Ciclo de 21 dias, meta de fila de até 5% da demanda. Os quatro cenários usam a mesma curva de demanda de cada loja e as regras da CLT vigentes, incluindo descanso dominical periódico e limites de dias consecutivos. Valores de custo incluem salário, encargos, transporte e alimentação. Os números são reais; os códigos das lojas foram alterados por confidencialidade.

Fonte : https://centu.com.br/blog/fim-da-escala-6×1-custo-simulacao

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