Gestão de desperdícios: um propósito da marca, muito além do prejuízo financeiro

Quando uma empresa desperdiça alimentos, não perde apenas dinheiro. Desperdiça água, energia, trabalho humano, recursos naturais e, sobretudo, a oportunidade de contribuir para uma sociedade mais sustentável e menos desigual.

GESTÃO DE DESPERDÍCIOS: UM PROPÓSITO DA MARCA, MUITO ALÉM DO PREJUÍZO FINANCEIRO Por Juedir Teixeira – Ph.D. em Administração

Quando uma empresa desperdiça alimentos, não perde apenas dinheiro. Desperdiça água, energia, trabalho humano, recursos naturais e, sobretudo, a oportunidade de contribuir para uma sociedade mais sustentável e menos desigual.

Durante minha trajetória como empresário, professor e consultor de varejo, tenho defendido que a gestão de perdas precisa deixar de ser uma preocupação exclusiva das áreas operacionais e financeiras para ocupar um lugar de destaque na estratégia empresarial.

Mais do que uma ferramenta de redução de custos, a prevenção de perdas deve ser incorporada à cultura organizacional e transformada em um verdadeiro propósito da marca.

Afinal, reduzir desperdícios significa melhorar a rentabilidade, aumentar a produtividade, preservar recursos naturais e contribuir para o enfrentamento de um dos maiores desafios da humanidade: a segurança alimentar.

A dimensão mundial do desperdício de alimentos

Os números continuam alarmantes.

Segundo o Food Waste Index Report 2024, publicado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), aproximadamente 1,05 bilhão de toneladas de alimentos foram desperdiçadas no mundo em 2022, o equivalente a 19% dos alimentos disponíveis aos consumidores.

Esse desperdício está distribuído da seguinte forma:

60% Domicílios 28% Serviços de alimentação 12% Varejo

Distribuição mundial do desperdício alimentar em 2022. Fonte: PNUMA, relatório de 2024.Esses números não incluem todas as perdas ocorridas nas etapas anteriores ao varejo.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), aproximadamente 13,3% dos alimentos produzidos mundialmente foram perdidos em 2023 entre a pós-colheita e as etapas anteriores à comercialização varejista. O mais preocupante é que praticamente não houve avanço global nesse indicador desde 2015.

FAOHome

Isso demonstra que o problema não está apenas na quantidade de alimentos produzidos, mas na eficiência de toda a cadeia de abastecimento.

Produzir mais alimentos é importante. Evitar que os alimentos produzidos sejam desperdiçados é igualmente fundamental. O impacto financeiro das perdas no varejo brasileiro.

No Brasil, os números demonstram que a prevenção de perdas deve estar entre as prioridades estratégicas de qualquer empresa varejista.

A 9ª Pesquisa de Perdas no Varejo Brasileiro, divulgada em junho de 2026 pela Associação Brasileira de Prevenção de Perdas (ABRAPPE), em parceria com a Protiviti, revelou que as perdas no varejo brasileiro alcançaram R$ 42,1 bilhões em 2025. O índice médio de perdas passou de 1,51% em 2024 para 1,65% em 2025, representando crescimento de 15,3% no valor financeiro das perdas.

Abrappe No setor supermercadista, a Pesquisa de Eficiência Operacional 2026, da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), identificou eficiência média de 98,18% em 2025, correspondente a um índice de ineficiência de 1,82%.

A pesquisa também revelou que a quebra operacional continua sendo o principal componente das perdas, respondendo por 62% de sua composição. Entre as causas dessa quebra, os problemas relacionados ao prazo de validade representam 41%.

ABRAS São números que merecem uma reflexão.

Uma empresa que opera com margens líquidas reduzidas pode comprometer grande parte de seu resultado com perdas que poderiam ser evitadas.

Consideremos um supermercado com faturamento anual de R$ 100 milhões e perdas equivalentes a 2% das vendas. Nesse cenário, estamos falando de R$ 2 milhões anuais em perdas.

Simulação ilustrativa de impacto financeiro

Faturamento anual R$ 100 mi Perdas iniciais (2%) R$ 2 mi Meta de perdas (1,5%) R$ 1,5 mi Redução anual das perdas R$ 500 mil

Uma redução de apenas 0,5 ponto percentual no índice de perdas representaria R$ 500 mil de melhoria potencial do resultado operacional, antes dos custos adicionais necessários para alcançar essa redução.

Dependendo da margem de lucro da empresa, esse ganho poderá representar uma parcela expressiva do resultado líquido anual. Por isso, costumo afirmar que o dinheiro que a empresa deixa de perder pode ser tão importante quanto aquele que ela conquista com o crescimento das vendas.

O desperdício de alimentos também é um problema ambiental

Quando um alimento é descartado, todos os recursos utilizados para produzi-lo também foram consumidos sem cumprir integralmente sua finalidade.

Estamos falando de água, energia, fertilizantes, transporte, embalagens, mão de obra e utilização do solo.

Segundo o PNUMA, as perdas e o desperdício de alimentos respondem por aproximadamente 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Isso significa que combater o desperdício alimentar também é uma estratégia de enfrentamento das mudanças climáticas.

UNEP – UN Environment Programme

A água merece atenção especial.

A produção de alimentos depende intensamente desse recurso, particularmente na agricultura e na pecuária. Quando desperdiçamos um alimento, desperdiçamos indiretamente a água utilizada ao longo de sua cadeia produtiva.

Essa relação demonstra que a gestão de perdas deve integrar as políticas de sustentabilidade das empresas, com indicadores ambientais que permitam mensurar resultados concretos.

Não basta anunciar compromissos com o meio ambiente. É necessário demonstrar, por meio de indicadores verificáveis, quanto a empresa conseguiu reduzir de desperdício.

A dimensão social: combater perdas também é combater a insegurança alimentar

Existe uma contradição que deveria incomodar toda a sociedade.

Enquanto enormes quantidades de alimentos são desperdiçadas, milhões de pessoas ainda enfrentam dificuldades para garantir uma alimentação adequada. É importante reconhecer que reduzir o desperdício, isoladamente, não resolve a fome. A insegurança alimentar também está relacionada à renda, à desigualdade, ao acesso e à distribuição dos alimentos.

Entretanto, uma gestão mais eficiente pode ampliar a disponibilidade de alimentos, reduzir custos e favorecer iniciativas de doação segura de produtos próprios para consumo.

Os supermercados, pela proximidade com fornecedores, consumidores e comunidades, possuem condições privilegiadas para liderar esse movimento.

Programas de doação, parcerias com bancos de alimentos, melhor aproveitamento comercial de produtos e campanhas de educação alimentar são iniciativas capazes de produzir impactos positivos.

Uma empresa socialmente responsável não deve medir seu sucesso apenas pelo lucro que gera, mas também pelo desperdício que consegue evitar e pelo valor que entrega à sociedade.

Transformar a prevenção de perdas em propósito da marca

O grande desafio não está apenas em criar procedimentos de controle, mas em fazer com que cada colaborador compreenda o significado de suas ações.

Um funcionário responsável pelo recebimento de mercadorias precisa entender que conferir corretamente os produtos não significa apenas cumprir uma obrigação operacional.

Significa evitar desperdícios, proteger o resultado da empresa e contribuir para o uso responsável dos recursos.

O mesmo raciocínio se aplica aos profissionais de armazenagem, logística, açougue, padaria, hortifrúti, reposição e gestão de estoques.

Quando as pessoas compreendem o propósito de suas atividades, aumenta a possibilidade de engajamento e de comprometimento com os resultados.

Esse aspecto é especialmente relevante na gestão de equipes multigeracionais. Profissionais de diferentes idades podem valorizar o significado social e ambiental do trabalho, embora suas motivações individuais sejam distintas.

A liderança tem papel decisivo nesse processo.

Não se constrói uma cultura de prevenção de perdas apenas por meio de cobranças e punições. É necessário educar, envolver, reconhecer boas práticas e demonstrar os benefícios econômicos e sociais alcançados. Da conscientização à gestão: indicadores, processos e tecnologia

A conscientização é indispensável, mas não é suficiente.

Nenhuma empresa consegue administrar adequadamente aquilo que não mede.

A prevenção de perdas precisa ser estruturada como um sistema permanente de gestão, com metas, indicadores, responsáveis e acompanhamento dos resultados.

Entre os principais indicadores que recomendo acompanhar estão:

Indicador Finalidade • Índice de perdas sobre vendas • Mensurar o impacto econômico • Perdas por loja, categoria e SKU • Identificar onde estão os maiores problemas • Perdas por vencimento • Avaliar validade, compras e giro • Perdas por avarias e deterioração • Melhorar armazenagem e manipulação • Acuracidade dos estoques • Identificar divergências físicas e sistêmicas • Cobertura e giro de estoques • Reduzir excesso e obsolescência • Ruptura de produtos • Equilibrar disponibilidade e eficiência • Valor de alimentos doados • Medir o impacto social • Quantidade de resíduos evitados • Acompanhar resultados ambientais

É importante distinguir perdas comerciais, quebras operacionais, diferenças de inventário e desperdício alimentar, evitando a duplicidade de registros.

A metodologia de gestão deve começar pela identificação das principais causas, utilizando ferramentas como a análise de Pareto.

Em seguida, a empresa deve estabelecer metas, definir planos de ação, capacitar equipes e acompanhar os resultados pelo ciclo PDCA: planejar, executar, verificar e agir corretivamente.

O benchmarking interno também merece atenção. Uma rede supermercadista pode identificar as lojas com os melhores resultados e transformar suas práticas em referências para as demais unidades.

A inteligência artificial abre uma nova fronteira na prevenção de perdas

A evolução tecnológica está transformando a maneira como as empresas podem enfrentar esse problema.

A inteligência artificial permite avançar de uma gestão predominantemente reativa para uma abordagem preditiva e, progressivamente, prescritiva.

Com acesso a dados confiáveis dos sistemas de gestão, é possível identificar padrões de perdas, antecipar riscos e recomendar ações antes que os prejuízos ocorram.

Entre as aplicações mais promissoras estão a previsão de demanda por produto e loja, a identificação de estoques excessivos, o monitoramento de produtos próximos do vencimento, a recomendação de remarcações de preços e a identificação de anomalias operacionais.

A inteligência artificial também pode relacionar perdas com indicadores de compras, cobertura de estoque, sazonalidade, margem e giro, oferecendo aos gestores uma visão integrada do negócio.

Uma rede com dezenas ou centenas de lojas pode comparar unidades com perfis semelhantes, identificar diferenças relevantes de desempenho e direcionar esforços para os pontos de maior impacto.

Essa é uma evolução importante: sair de relatórios que apenas mostram quanto foi perdido para sistemas que ajudam a explicar por que a perda ocorreu, o que pode acontecer e quais decisões devem ser tomadas para evitá-la.

Entretanto, a tecnologia não substitui a liderança, a disciplina operacional e o comprometimento das equipes. Ela amplia a capacidade de gestão quando está apoiada em processos consistentes e informações confiáveis.

A prevenção de perdas deve ser responsabilidade de toda a organização

Um dos erros mais frequentes é atribuir a responsabilidade pelas perdas exclusivamente a um departamento.

Na realidade, a prevenção começa muito antes de o produto chegar às gôndolas.

Compras inadequadas, negociações que estimulam estoques excessivos, previsões de demanda equivocadas, falhas logísticas, armazenamento incorreto e reposição ineficiente podem gerar perdas significativas.

Por isso, a prevenção deve envolver toda a organização, desde a presidência até os profissionais responsáveis pela operação diária.

A área de compras precisa considerar o giro e a cobertura dos estoques. A logística deve garantir condições adequadas de transporte e armazenamento. Os gestores comerciais precisam equilibrar disponibilidade, margem e risco de vencimento.

E a liderança deve assegurar que a redução de perdas não comprometa a qualidade, a segurança dos alimentos ou a experiência de compra.

Um compromisso permanente com os resultados e com a sociedade

Ao longo de minha experiência em consultoria empresarial, tenho observado que os melhores resultados surgem quando a prevenção de perdas deixa de ser uma campanha temporária e passa a integrar a cultura da organização.

O sucesso depende de uma combinação de conscientização, capacitação, processos, indicadores, tecnologia e comprometimento da liderança.

Mas existe algo ainda mais importante: dar significado ao trabalho.

Quando o colaborador compreende que uma caixa de frutas preservada, um produto corretamente armazenado ou uma compra bem planejada representam não apenas economia financeira, mas também respeito aos recursos naturais e à sociedade, a prevenção de perdas assume outra dimensão.

Ela deixa de ser simplesmente uma obrigação operacional e se transforma em um compromisso coletivo.

Minha convicção é que a empresa que aprende a evitar desperdícios não se torna apenas mais lucrativa. Torna-se também mais eficiente, sustentável, competitiva e socialmente responsável.

E é exatamente por isso que defendo:

A gestão de perdas precisa ser tratada como um propósito da marca, muito além do prejuízo financeiro.

Juedir Teixeira – Ph.D. em Administração Professor, empresário, consultor e conselheiro empresarial. Sócio-fundador da JTB Consultoria – Universidade do Varejo. Contato: [email protected] | [email protected] LinkedIn: JTB Consultoria Fontes e referências atualizadas.

As principais fontes utilizadas na revisão foram:

1. PNUMA / ONU (2024) — Índice de Desperdício de Alimentos 2024. Dados mundiais sobre desperdício, impactos ambientais e distribuição por setor. 2. FAO (2025) — Indicador global de perdas de alimentos. Monitoramento das perdas nas cadeias de produção e abastecimento. 3. ABRAPPE / Protiviti (2026) — 9ª Pesquisa de Perdas no Varejo Brasileiro. Resultados financeiros das perdas no varejo nacional. 4. ABRAS (2026) — Pesquisa de Eficiência Operacional 2026. Indicadores e práticas do setor supermercadista. 5. FAO / AQUASTAT (2025) — Dados atualizados sobre recursos hídricos. A agricultura responde por aproximadamente 72% das retiradas mundiais de água doce. Observação editorial: retirei os percentuais antigos de desperdício atribuídos ao IBGE e ao Instituto Akatu, porque não encontrei confirmação suficientemente consistente para reproduzi-los como estatísticas atuais. Também evitei misturar perdas na produção com desperdício no consumo, pois os indicadores possuem metodologias e bases diferentes. O artigo está estruturado para publicação na coluna Conexão Empresarial e também pode ser adaptado para um artigo no LinkedIn.

Fonte : https://www.jtbconsultoria.com.br/artigos/gestao-de-desperdicios-um-proposito-da-marca-muito-alem-do-prejuizo-financeiro

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