Por que o varejo brasileiro ainda não aprendeu a surfar os hypes culturais no momento certo?
Enquanto milhões de brasileiros se emocionam ao encontrar o Morango do Amor em confeitarias locais ou com profissionais autônomos — viralizado por jovens, celebridades e influenciadores — muitos supermercados seguem operando como se nada estivesse acontecendo. Nas últimas semanas, visitei diversas lojas e notei: nenhuma ativação nas padarias e confeitarias, nenhuma exposição temática nos pontos extras, nenhum estímulo aos ingredientes para o “faça você mesmo”. Só silêncio — e planogramas imutáveis.
Essa cena é mais comum do que deveria. Ao acompanhar o varejo brasileiro e os bastidores da gestão de categorias, vejo uma rigidez operacional que impede capturar as oportunidades do agora. Criamos áreas de GC focadas em padronização, mas sem incentivo a processos flexíveis, vivos, capazes de responder à sazonalidade, ao clima, à cultura pop — e até mesmo aos memes, uma especialidade brasileira.
Ter uma base de execução organizada e inteligente é essencial. O problema começa quando a excelência operacional vira um fim em si mesma, e não um meio para vender mais e melhor.
Vamos a outros exemplos?
• No Carnaval deste ano, o boom do Pipizito® — cone urinário descartável que permite às mulheres se aliviarem fora de casa sem contato com vasos sanitários — foi um caso claro de oportunidade perdida. A escolha da garota-propaganda, Angélica Huck, referência de influência neutra, reforçou o apelo. Quantas lojas criaram pontos sazonais ou deram visibilidade ao produto na data mais festiva do país?
• As revistas para colorir Bobbie Goods®, febre no TikTok® e Instagram®, são outro exemplo. A pergunta que pais e mães se fazem é: “onde comprar?”. O ideal seria na sua loja preferida, mas não. Continuamos com check stands apostando apenas em chicletes, balas e pilhas.
Agora, com o Morango do Amor, temos uma oportunidade perfeita para explorar categorias como frutas, leite condensado, coberturas, massas de bolo, embalagens de presente e muito mais. Mas, mais uma vez, seguimos passando batido e por vezes com o protagonista do momento ausente ou quando presente, com baixa qualidade.
Segundo o Special Report Digital 2025, da We Are Social, o Brasil é o 5º país do mundo em tempo médio diário nas redes sociais, com cerca de oito plataformas ativamente usadas por pessoa. Ou seja, além de gerar conversas nas redes em prol das marcas e lojas, precisamos observar, aprender e agir rapidamente sobre os insights descobertos. Temos o ritmo e a velocidade de startups, mas não colhemos os mesmos resultados porque nos falta método e planejamento contínuos.
Na maioria das vezes, a resposta que ouço é: “não temos estrutura para isso”. Mas talvez a pergunta correta seja: o que nos impede de testar para apurar e aprender?
Em mercados mais maduros, redes pequenas ou independentes se movem com agilidade. Uma trend no Instagram® vira vitrine no dia seguinte. Um meme vira produto. Uma data comemorativa vira receita interativa no encarte, com QR code para vídeo no Reels®. Não é sobre ter budget milionário — é sobre ter coragem e iniciativa no tempo certo.
Enquanto isso, seguimos apostando no Brasil que o crescimento virá da abertura de novas lojas, da oscilação inflacionária de cestas comoditizadas ou da sorte no calendário promocional. Mas deixamos de lado o essencial: a escuta ativa do consumidor e a vontade de encantá-lo com relevância cultural.
Minha provocação é simples: e se, ao invés de só pensar em novos SKUs e precificações, colocássemos a cultura pop na pauta dos comitês de GC, Comercial, Supply Chain e Marketing? E se o sortimento e a exposição também dançassem conforme a música?
Quem sabe o próximo hit do momento não esteja esperando apenas uma ilha de morangos, uma cobertura de chocolate e uma loja que se permita ser menos engessada — e mais apaixonada.
Fonte : https://supervarejo.com.br/artigo/cade-o-morango-do-amor-no-seu-pdv