Recorde de exportações até novembro e abertura de novos mercados dão fôlego ao Brasil
No ano em que o presidente Donald Trump impôs uma nova ordem ao comércio global, com o tarifaço dos EUA que ameaça romper as bases do multilateralismo, o Brasil consolidou posição de grande exportador de commodities agrícolas e minerais. Os dados fechados da balança comercial de 2025 serão divulgados na próxima semana, mas o acumulado de janeiro a novembro já registra recorde nas exportações gerais, com valor de US$ 317,8 bilhões, 1,8% a mais do que o desempenho também recorde do período em 2024.
Reportagem do Estadão/Broadcast com dados do Ministério da Agricultura revelou que as exportações ligadas ao agronegócio cresceram 1,7% de janeiro a novembro, totalizando US$ 155,25 bilhões, o que confirma o peso do agro nas vendas brasileiras. Mas foi também a diversificação de mercados que impediu o desastre que se temia desde que Trump criou, em abril, o Dia da Libertação, com sua nova política tarifária, até a oficialização do tarifaço, em agosto, quando produtos brasileiros passaram a ser tributados em 50% sob o falso argumento de que os EUA registravam déficit na relação comercial desigual com o Brasil, quando a relação é exatamente a inversa.
À narrativa peculiar e desprovida de fundamentos Trump acrescentou elementos políticos, ligados principalmente à investigação da tentativa de golpe no Brasil comandada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, o que deixou pouca margem para negociações. O tempo mostrou, afinal, quão acertada foi a decisão brasileira de evitar retaliações à ação unilateral. O recuo de novembro, com redução das tarifas pelo governo norte-americano, e a abertura de canais de diálogo em bases mais realistas são um respiro para os exportadores brasileiros, mas não garantem um 2026 mais tranquilo.
Novas reuniões entre representantes dos dois países estão previstas para este mês, mas tão importante quanto ampliar os canais de negociações é insistir na abertura de novos mercados e investir em arranjos regionais. Estudo da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex) com base nos dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) mostrou que, de 30 setores que exportam para os EUA, 19 venderam 14,5% menos de janeiro a novembro, ante o mesmo período de 2024, enquanto outros 11 ampliaram as vendas em 9,8%.
Ou seja, o efeito do tarifaço não atingiu a todos da mesma forma, enquanto o desempenho de um grupo compensou as perdas de outro no saldo final e, de certa forma, reduziu a dependência do mercado norte-americano. Em 2025, o Brasil contabilizou a abertura de mais de 200 novos mercados para produtos do agronegócio em 58 destinos, um ritmo forte de diversificação. Isso ainda não significa a garantia de um comércio imediato, mas o início de um processo que avaliza a entrada de produtos brasileiros sujeitos – como é comum no mercado internacional – a barreiras sanitárias ou comerciais. A agressiva investida de Donald Trump pode ter servido, afinal, para sacudir a política comercial brasileira.
Fonte : https://www.estadao.com.br/opiniao/driblando-o-tarifaco-de-trump