A reconfiguração do trabalho e os impactos no varejo e nos serviços do Brasil

Marcos Gouvêa de Souza

No momento em que a exclusiva motivação eleitoreira pauta a discussão da proposta de revisão das jornadas de trabalho, em um conluio açodado entre as mais altas esferas dos poderes executivo e legislativo do País, é fundamental refletir sobre o processo estrutural de reconfiguração do trabalho no mundo e as particularidades que o tema tem no Brasil.

A visão da transformação no mundo

O Future of Jobs Report 2025, do World Economic Forum, fez ampla análise de como tecnologia, Inteligência Artificial, transformações demográficas, mudanças geopolíticas, incertezas econômicas e transição energética redefinem o mercado de trabalho mundial.

O estudo teve como base uma pesquisa com mais de 1.000 grandes empregadores em 55 economias e estima que, até 2030, serão criados 170 milhões de novos postos de trabalho, enquanto 92 milhões serão reconfigurados. E isso poderá representar uma movimentação estrutural equivalente a 22% do total de empregos considerados na amostra.

O principal motor dessa transformação é tudo o que envolve tecnologia, complementada pela Inteligência Artificial, big data, automação, robótica e ampliação do acesso digital, que modificam processos, profissões, competências requeridas e modelos de negócios.

Esse cenário faz e fará crescer a demanda por especialistas em IA, dados, tecnologia e segurança digital, mas também por profissionais de logística, construção, educação, saúde e cuidados pessoais. Em contrapartida, atividades administrativas, caixas, operadores de registros e outras funções repetitivas estão entre as mais suscetíveis à redução.

O estudo destaca que a transformação não significa apenas eliminação de empregos, mas igualmente criação de novas ocupações e, por certo, redefinição abrangente das existentes.

Uma das conclusões mais relevantes é a transformação das competências profissionais, com a estimativa de que 39% das habilidades atualmente exigidas no trabalho serão modificadas ou perderão relevância até 2030.

Conhecimentos em IA, análise de dados, segurança digital e domínio tecnológico estarão entre os mais valorizados, ao lado de pensamento analítico, criatividade, resiliência, flexibilidade, liderança e capacidade de colaboração.

Cerca de perto de 59% da força de trabalho mundial precisará passar por algum processo de requalificação ou aperfeiçoamento profissional. O desafio não será apenas criar empregos, mas preparar pessoas para ocupações e responsabilidades diferentes.

O relatório identifica a insuficiência de competências como uma das principais barreiras à transformação empresarial. Para 63% dos empregadores, esse é um obstáculo relevante. Embora 85% deles planejem priorizar a qualificação de suas equipes, 40% também consideram reduzir quadros devido à obsolescência de determinadas competências.

O desafio não será apenas criar empregos, mas preparar pessoas para ocupar novas funções e assumir responsabilidades diferentes. A mensagem central é que o futuro do trabalho dependerá da capacidade de integrar inteligência artificial e inteligência humana, elevar a produtividade, desenvolver novas competências e construir relações de trabalho compatíveis com uma economia em rápida e irreversível transformação.

E essa síntese aponta para uma ampla reconfiguração do trabalho como fenômeno em âmbito global.

As particularidades brasileiras ampliam a complexidade da transformação

Não é recomendável imaginar apenas a importação de conceitos de transformação dos Estados Unidos, China ou Europa. Nossa estrutura econômica, social, demográfica, empresarial e educacional é significativamente diferente.

O Brasil tem características que tornam essa transição muito mais desafiadora, a começar pelo fato de ser um dos únicos países no mundo a ter uma justiça com tribunais próprios, primeira e segunda instância e tribunal superior dedicados ao trabalho.

Estudo recém divulgado da CNC (Confederação Nacional de Comércio de Bens, Serviços e Turismo) mostra que o trabalho remoto e a IA já reduzem empregos e salários em diferentes profissões, especialmente nos setores de varejo e serviços.

Nesses aspectos, vale destacar 8 temas relevantes e particulares que impactam a transformação do emprego no Brasil e desaconselham uma revisão precipitada e pouca analisada das questões envolvendo jornadas de trabalho.

Diferentes níveis de maturidade convivendo simultaneamente

O Brasil tem empresas que operam com nível avançado de incorporação de Inteligência Artificial, automação, análise preditiva e plataformas digitais, enquanto uma parcela significativa do universo empresarial ainda está em estágios iniciais de digitalização.

Informalidade e precariedade como condicionantes da transformação

O Brasil tem um mercado de trabalho com participação estimada de 38,5% de informais, que reúne também microempreendedores, autônomos e trabalhadores de plataformas. Isso produz uma situação diferente daquela observada em economias mais formais.

Expressiva desigualdade de acesso e de capacidade de utilização de tecnologia, digital e IA

Igualmente complexa é a capacidade de utilizar a tecnologia para gerar valor. A desigualdade digital se transforma em desigualdade de produtividade, renda e oportunidades profissionais, ampliando distorções sociais e econômicas

Diferenças regionais profundas

Não existe um único mercado de trabalho brasileiro. As diferenças regionais precisam ser tratadas como hipóteses de segmentação econômica, e não como uma classificação de maturidade de cada região. Há polos tecnológicos e empresariais relevantes em todas elas, mas, na prática, a transformação do trabalho exigirá estratégias distintas de infraestrutura, capacitação, tecnologia e desenvolvimento empresarial.

A relevância do pequeno e médio empreendedor

Uma particularidade fundamental do Brasil é a importância de empresas menores no comércio, alimentação, serviços pessoais, beleza, turismo e atividades profissionais. E isso cria uma realidade que depende de infraestrutura, capacitação, acesso a soluções e capacidade de integração a serem considerados frente às novas alternativas de emprego.

Demografia e envelhecimento da população

O Brasil passa por uma transição demográfica que também altera o mercado de trabalho e o consumo. O envelhecimento populacional envolve maior demanda por saúde e cuidados, novas opções de mobilidade e conveniência, expansão dos serviços de bem-estar com uma recomposição importante na força de trabalho e evidentes oportunidades e desafios na integração entre tecnologia e atendimento humano.

Há aqui uma conexão cada vez mais importante entre longevidade, trabalho e consumo. Não se trata apenas de atender pessoas mais velhas, mas de reconhecer que a população economicamente ativa também terá diferentes idades, experiências e necessidades de atualização profissional e cuidados pessoais.

A complexidade operacional e tributária brasileira

A transformação do trabalho provocada pelo digital e os novos modelos de emprego no Brasil também precisam considerar nossa complexidade tributária, agravada nesse período de transição, além das diferenças regulatórias e de infraestrutura logística.

Uma reforma trabalhista inacabada

A reforma trabalhista iniciada permanece em parte inacabada e tem sido constantemente desvirtuada pelas mais diferentes razões envolvendo temas muito sensíveis, que vão da ingerência de poderes às indefinições de competência, em um cenário de acelerada transformação provocada pelas alternativas e modelos de trabalho e emprego.

As questões que o Brasil precisa enfrentar

 Nas questões que envolvem as transformações do trabalho existem cinco agendas que precisam avançar simultânea e rapidamente.

  • Educação e formação profissional, com reformulação da educação básica, técnica, universitária e executiva, incorporando IA, competências digitais, pensamento crítico e aprendizagem permanente.
  • Produtividade e competitividade empresarial, para acelerar a incorporação de tecnologia nas empresas, especialmente nas pequenas e médias, reduzindo a distância entre organizações mais e menos produtivas.
  • Modernização das relações de trabalho, para atualizar os mecanismos de contratação, qualificação, proteção e remuneração para uma realidade que combina empregados, autônomos, plataformas e agentes digitais.
  • Inclusão e distribuição dos ganhos, evitando que a transformação tecnológica amplie as diferenças de renda, oportunidades e acesso ao conhecimento.
  • Coordenação entre empresas, educação e sociedade, para aproximar negócios, universidades, instituições de formação profissional, entidades empresariais e poder público para construir uma agenda nacional de transformação.

Para reflexão final

É inegável que a dimensão ampliada do processo de transformação do trabalho no mundo pelo avanço da tecnologia, do digital e da IA tem particularidades muito próprias na realidade brasileira atual. Durante décadas, a competitividade empresarial foi construída principalmente pela capacidade de produzir mais, distribuir melhor, reduzir custos e administrar estruturas complexas.

Vivemos uma etapa na qual a inteligência disponível, a capacidade de aprender, a velocidade de adaptação e a integração entre pessoas, tecnologia e organizações passam a ter um peso crescente em tudo e, em especial, nas estruturas e nos modeles do trabalho e emprego.

Como transformar a revolução digital e a Inteligência Artificial em uma revolução de produtividade, oportunidades, qualidade de vida e desenvolvimento econômico no momento atual pressupõe analisar, avaliar diferentes modelos, considerar as muitas diferenças locais e, principalmente, ter um mínimo de bom senso para não avançar decisões que podem gerar danos maiores pelo puro, simples e inconsequente apelo eleitoreiro.

Vale mais essa reflexão, pois o custo da insensatez e da precipitação pode ser muito alto.

Marcos Gouvêa de Souza é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem e publisher da plataforma Mercado&Consumo.

*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.

Fonte : https://mercadoeconsumo.com.br/05/10/2026/artigos/a-reconfiguracao-do-trabalho-e-impactos-no-varejo-e-servicos-do-brasil/?utm_medium=email&utm_campaign=news_geral_-_0510_-_vale&utm_source=RD+Station

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