Relatório da Eleven vestuário e e-commerce também podem receber recursos
O atacarejo deve ser o primeiro segmento do varejo a sentir algum efeito da redução dos gastos com as bets, que foram proibidas de operar no País por meio de medida provisória no dia 25. Segundo análise da Eleven Financial, o perfil dos apostadores ajuda a explicar o potencial impacto sobre o consumo.
Antes da suspensão das casas de apostas, o brasileiro que apostava perdia em média R$ 122 por mês. Em 2024, 52% dos 22 milhões de apostadores estimados pelo DataSenado recebiam até dois salários mínimos. É um público que não tem folga, e o gasto com apostas saía de onde mais dói. Segundo a SBVC, 19% dos apostadores reduziram compras em supermercados e 23% cortaram as de roupas.
“O atacarejo tem maior exposição a consumidores de baixa renda, para quem os R$ 122 mensais representam uma parcela mais significativa do orçamento. O estudo também aponta que alimentos estão entre os gastos reduzidos por apostadores”, afirma Arthur Bonifácio, analista da Eleven Financial.
Assaí e Grupo Mateus são as empresas mais bem posicionadas para sentir a mudança, mas o dinheiro que deixar de ser gasto com bets não deve chegar integralmente às lojas. O endividamento dos apostadores e os juros altos podem fazer com que parte dele seja usada para pagar contas e dívida.
Segundo o Ifepec, 81% dos apostadores têm dívidas, dos quais 74% estão com pagamentos atrasados, e 23% dizem apostar para pagar dívidas. Entre quem começou a apostar em 2025, a inadimplência é 20% maior, o atraso no cartão 38,7% maior e o limite de crédito 16% menor do que entre pessoas parecidas que não apostam, de acordo com estudo de Stone e Insper. No Sicredi, a inadimplência entre apostadores é 40% maior.
“O endividamento pode limitar bastante essa conversão: famílias com dívidas e pagamentos atrasados tendem a priorizar a reorganização financeira antes de ampliar o consumo. O relatório também aponta maior inadimplência e atraso no cartão entre apostadores”, diz.
Vestuário e comércio eletrônico
Além do atacarejo, vestuário e comércio eletrônico aparecem entre os segmentos que podem ser beneficiados pela redução dos gastos com apostas, mas o caminho é mais longo. São setores que vendem parcelado, e o alívio no orçamento só vira venda quando a família volta a ter crédito e disposição para financiar compras.
Segundo a SBVC, 23% dos apostadores reduziram as compras de roupas em 2024. Na lista de empresas acompanhadas pela Eleven estão Lojas Renner, Riachuelo e C&A, no vestuário, e Magazine Luiza, Mercado Livre e Casas Bahia, no comércio eletrônico.
“Com menor pressão sobre o orçamento, as famílias podem recuperar capacidade de compra e, gradualmente, melhorar sua condição de acesso ao crédito. Isso pode favorecer compras parceladas e discricionárias de vestuário e no e-commerce. O benefício tende a ser menor que no atacarejo, e os juros elevados continuam sendo uma limitação”, diz Bonifácio.
Congresso pode esvaziar a tese
A medida provisória tem 120 dias para ser analisada pelo Congresso, e o relatório prevê que uma eventual reversão ou redução do alcance da medida pode alterar o efeito esperado sobre o varejo.
Bonifácio explica que uma reversão significaria a derrubada da medida, permitindo a retomada das operações abrangidas. Já uma “desidratação” ocorreria caso a MP fosse aprovada com alcance mais restrito ou aplicação limitada.
“Nos dois casos, o potencial de transferência de recursos das apostas para o consumo seria menor ou mais lento. Em termos práticos, alterações que reduzissem o alcance da suspensão, criassem exceções ou adiassem sua aplicação poderiam diminuir ou postergar os recursos potencialmente direcionados ao consumo”, diz.