Fábio Bentes, economista-chefe da CNC, defende que redução da jornada tem que ser discutida com responsabilidade e por meio de acordos entre patrões e empregados
A redução da jornada de trabalho tem que ser discutida com responsabilidade e por meio de acordos entre patrões e empregados, diz o economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), Fábio Bentes, que conduziu um estudo sobre os impactos do fim da escala 6×1. Segundo ele, as propostas de emenda à Constituição (PECs) apresentadas na Câmara poderão encarecer a mão de obra e jogar mais trabalhadores na informalidade.
Há algum modelo alternativo às PECs em tramitação que tornaria a flexibilização da escala de trabalho economicamente viável?
Da forma como está, o gradualismo teria que ser muito grande. Embora o gradualismo possa amortecer esse tipo de situação, se a decisão for colocada de forma linear, sem abrir espaço para uma negociação mais ampla entre patrões e empregados, o impacto só vai vir em um prazo mais longo.
Ninguém é contra a formalização e a proteção dos trabalhadores. Tornar esse anseio economicamente viável é o que nos preocupa. E para ser viável, tem que ter negociação coletiva. O momento atual, com taxa de desemprego baixa e escassez de mão de obra, é até favorável para os trabalhadores nesse tipo de negociação. A gente não precisa dar cavalo de pau na legislação.
Com jornada menor, pode-se esperar uma aceleração da automação no varejo?
No momento em que o acesso à tecnologia está ficando cada vez mais barato e acessível, o encarecimento da mão de obra e da hora trabalhada de forma abrupta, torna o investimento em tecnologia mais barato. E aí, o tiro pode sair pela culatra.
Em vez de se gerar vagas, pode-se gerar desemprego. Porque o empresário vai começar a perceber que vale a pena investir mais em tecnologia do que em mão de obra.
O mercado de trabalho brasileiro tem cerca de 40% dos trabalhadores na informalidade. A redução da jornada pode agravar isso?
Se a hora trabalhada vai ficar mais cara, espera-se que boa parte do setor produtivo acabe apelando para a informalidade na hora de contratar um trabalhador. A gente, de maneira nenhuma, defende isso. Um trabalhador informal é um trabalhador insatisfeito.
Um trabalhador desprotegido é um consumidor com menos dinheiro no bolso, porque a renda média de um trabalhador informal é de 30% a 40% menor do que a de um trabalhador formal. Encarecer a hora trabalhada pode produzir um estímulo à informalidade.
O comércio é a principal porta de entrada para jovens e trabalhadores. Há risco de fechamento das vagas para iniciantes?
Fechamento é um termo um pouco forte, mas a porta pode ficar mais estreita.
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Seria importante que o comércio tivesse regras diferenciadas em relação aos demais setores?
Se a gente precisar comprar um alimento num domingo, num sábado, a gente vai encontrar o comércio aberto. O que isso significa? Que o comércio precisa mais de trabalhadores e oferece mais vagas porque ele opera em uma escala maior. Se a gente restringir essa capacidade, a alternativa pode ser restringir o horário de funcionamento desses estabelecimentos, o que é ruim para a população.
(Do Valor)