Como o brasileiro vai gastar o dinheiro da isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil?

Dos R$ 31,2 bilhões que devem ser injetados na economia em 2026, ano eleitoral, cerca de um terço deve ir para quitar dívidas em atraso e 28,4% para compra de bens, sobretudo de alimentos e bebidas, calcula a CNC

O pagamento de dívidas e a compra de itens essenciais do dia a dia, como alimentos, combustíveis e medicamentos, devem ser os principais destinos da renda extra que a nova isenção do Imposto de Renda trará a cerca de 14 milhões de brasileiros com ganhos mensais de até R$ 5 mil, aponta um estudo da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), encomendado pelo Estadão.

Além do impacto econômico, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda, aprovada na quarta-feira, 5, no Senado, tem forte componente político. A medida cumpre uma promessa de campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e reforça o discurso do governo de priorizar o poder de compra da população de menor renda, especialmente em um cenário de juros altos e endividamento recorde.

A iniciativa também surge em um contexto estratégico: ao entrar em vigor em 1º de janeiro de 2026, ano eleitoral, a medida tende a melhorar a percepção do governo entre trabalhadores da classe média baixa, sensíveis ao custo de vida e à carga tributária. Ao mesmo tempo, o impacto fiscal de mais de R$ 30 bilhões alimenta críticas de opositores, que veem a medida como populista e fiscalmente arriscada em um momento de incerteza sobre o equilíbrio das contas públicas.

No curto prazo, endividamento e inadimplência do consumidor, atualmente em níveis elevados e juros básicos na maior marca em 20 anos, são fatores que devem jogar contra do uso dos recursos para a compra de itens de maior valor. No entanto, a recuperação do crédito dos que estão hoje inadimplentes pode turbinar o consumo de bens mais caros e comprados a prazo ao longo de 2026, que é um ano eleitoral.

Dos R$ 31,2 bilhões de renúncia fiscal projetados para o ano que vem, cerca de um terço, R$ 10,47 bilhões, será usado para pagamento de dívidas, aponta o estudo da CNC. Na sequência, o segundo destino dos recursos extras será a compra de bens, que deve absorver R$ 8,84 bilhões ou 28,4% do total, seguido pelo gasto com serviços (R$ 8,14 bilhões ou 26%) e poupança, com R$ 3,75 bilhões (12%).

Qual deve ser o destino da sobra de dinheiro por conta da isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil em 2026

“A tendência é que o consumidor aproveite esses recursos para limpar o nome e aliviar um pouco o orçamento”, afirma o economista-chefe da CNC e responsável pelo estudo, Fabio Bentes.

Ele observa que, de um lado, o mercado de trabalho tem indicadores muito bons, mas a economia está com freio de mão puxadíssimo, que é a taxa de juros de 15% ano. A perspectiva é de que essa taxa continue elevada nos próximos meses, segundo o último comunicado do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), divulgado na quarta-feira, 5 de novembro. Juros em alta dificultam a renegociação de dívidas dos inadimplentes.

Para projetar qual será o destino dos recursos extras, o estudo considerou os três pilares do consumo: as condições do mercado de trabalho (renda e emprego), de crédito e a inflação, acrescido do comprometimento da renda das famílias.

Bentes destaca que tanto os dados da CNC como os do BC mostram que o comprometimento da renda do brasileiro com dívidas está em níveis recordes. Estatísticas do BC indicavam que em agosto, o último disponível, 26,3% da renda das famílias estava empenhada com algum tipo de dívida, excluindo a prestação da compra de imóveis e descontadas as influências sazonais. Esse resultado se equipara ao de maio de 2023 (26,3%) e é o maior da série.

Renda comprometida

Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic) da CNC mostra que, em outubro, 30,5%, das famílias atrasaram o pagamento de dívida e 13,2% declararam que não terão condições de pagar as dívidas pendentes. Em ambos os casos os resultados são recordes.

Ulisses Ruiz de Gamboa, professor de Economia do Insper, acredita que o endividamento elevado das famílias vai pesar na decisão do que fazer com os recursos extras por conta isenção de Imposto de Renda. “Acho que a prioridade vai ser acertar as dívidas, ao menos no início.”

No entanto, ele pondera que o uso dos recursos para recuperar o crédito pode abrir espaço para ampliar o consumo de itens de maior valor a médio prazo. “A pessoa limpa o nome e volta a ser sujeito de crédito.”

Por ora, Gamboa acredita que o consumo de bens não duráveis ligados à renda, como alimentos e medicamentos, por exemplo, serão turbinados no curto prazo.

Para a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, não necessariamente essa injeção de recursos será direcionada para quitar dívidas em atraso, apesar de a inadimplência estar elevada.

Ela ressalta que, mesmo com o arrefecimento recente, a inflação de alimentos acumulada nos últimos anos é elevada e o comprometimento da renda com os gastos do dia a dia, acrescido do pagamento de dívidas, é alto. “Ou seja, qualquer folga que essa família tenha poderá direcionar para o consumo, muitas vezes de subsistência, pois ela está com o orçamento comprometido.”

Alimentos e bebidas

O estudo da CNC mostra que, do total de R$ 8,84 bilhões direcionados ao consumo no ano que vem por conta da isenção de Imposto de Renda, quase a metade, R$ 4,17 bilhões (47%), deverá ser capturada pelos hipermercados e supermercados, que vendem alimentos e bebidas, itens de primeira necessidade.

Como serão distribuídas as vendas por segmento de bens de consumo

Na sequência, estão combustíveis e lubrificantes, itens de farmácias e cosméticos, artigos de uso pessoal e doméstico, vestuário e calçados e outros segmentos

Karla Cristina Pena Silva, de 35 anos, funcionária da Prefeitura de Diadema (SP), por exemplo, ganha menos de R$ 5 mil e será beneficiada pela isenção de Imposto de Renda a partir do ano que vem. Ela calcula que vai ter disponível cerca R$ 200 a mais por mês em razão da medida.

Mãe de duas meninas, de 7 anos e 9 anos, ela pretende poupar esses recursos extras para fazer uma reserva de emergência. “Por enquanto, será para reserva de emergência, mas não sei se será quando tiver com o dinheiro na mão”, diz ela. “Pode dar vontade de gastar, comprar uma coisinha melhor, uma marca melhor de alimento.”

Ela conta que no supermercado muitas vezes opta pela marca mais barata. Karla não descarta, agora, a possibilidade de fazer um upgrade de marca, principalmente de iogurte e sucrilhos que compra para as filhas.

Fábio Queiróz, presidente da Associação de Supermercados do Rio de Janeiro (Asserj), que tem 400 empresas associadas com mais de 2 mil lojas no Estado do Rio de Janeiro, acredita que vai haver aumento de vendas de itens de supermercado por conta dessa renda extra para os consumidores das classes C, D e E.

Historicamente, diz ele, quando há aumento de renda para o público dessa faixa, um pouco mais da metade desse incremento é gasto no supermercado.

Nesse caso, a estratégia dos supermercados é aumentar o sortimento de produtos, especialmente de biscoito, bebidas, padaria, laticínios, observa. “Os supermercados aumentam o sortimento para atender públicos de todos os gostos e todos os bolsos.”

Nem explosão nem salvação

Álvaro Furtado, presidente do Sincovaga, sindicato do comércio de gênero alimentícios que representa da mercearia ao hipermercado no Estado de São Paulo, acredita que esses recursos extras na mão do consumidor vão ampliar as vendas de alimentos, mas pondera que não será explosivo.

Ele diz que é cedo para prever em quanto as vendas serão ampliadas, lembrando que, no início de ano, há muitas despesas importantes, como matrículas escolares e gastos com IPTU (Imposto sobre a Propriedade Predial e Territorial Urbana), que absorvem parte da renda.

Para Bentes, da CNC, a isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil “não vai salvar o ano do comércio e também não vai tirar a inflação da trajetória de queda”.

Isso porque magnitude da soma de recursos extras que estarão disponíveis para consumo será pequena, comparada com a massa de rendimentos. O comércio varejista vende cerca R$ 4 trilhões por ano e a cifra extra que poderá ser direcionada ao consumo de bens, nas contas da CNC, deve somar R$ 8,84 bilhões.

“Poderá ter efeito nos segmentos que não dependem de crédito, como alimento, combustível, medicamento, mas não vai ter impacto significativo nas vendas anuais do varejo no ano que vem”, diz o economista-chefe da CNC. Para salvar o ano do varejo, diz ele, precisa começar a baixar juros quanto antes. “Isso faria uma diferença bastante significativa.”

Procuradas, a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), Associação Paulista de Supermercados (Apas), Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) e Abrafarma, que reúne as farmácias, não se manifestaram.

Fonte : Como o brasileiro vai gastar o dinheiro da isenção de Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil? – Estadão

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