O delivery deixou de ser uma frente de crescimento isolada como canal de vendas para se transformar em um novo modelo de negócio cada vez mais estruturado e estratégico para o foodservice, e que precisa ser gerido como canal de margem, dados e fidelização. É o que mostra a “Pesquisa Anual Setorial de Foodservice ABF 2025-2026”, realizada pela Associação Brasileira de Franchising (ABF) em parceria com a Galunion Inteligência Estratégica para Foodservice. Nove em cada dez empresas (90%) trabalham com delivery e, em média, o canal respondeu por 22,5% do faturamento das operações em 2025. De acordo com 44% das marcas respondentes, o delivery já representa mais de 16% do faturamento.
A evolução do segmento também é marcada por uma competição maior entre as plataformas de entrega e pela necessidade de as redes construírem estratégias próprias para equilibrar alcance, custos, relacionamento e rentabilidade. Nesse cenário, o delivery passa a envolver muito mais do que a logística de levar o produto ao consumidor: incorpora experiência, dados, fidelização, conveniência, construção de marca e novas possibilidades de relacionamento. Assim, a maturidade do canal exige das redes uma gestão mais sofisticada de parceiros, plataformas, canais próprios e custos de operação, buscando capturar valor em um ambiente de concorrência crescente.
A pesquisa, feita por amostragem, envolveu 62 marcas do segmento de Alimentação associadas à ABF (tanto do subsegmento Food Service quanto de Comercialização e Distribuição), que respondem por 45% da receita dessas redes, por 38% do faturamento total das marcas do franchising desse segmento (incluindo não associadas) e por 32% das operações. A amostra reúne, ainda, 15.975 pontos de venda (PDVs), a maior parte em lojas de Rua (60%), seguidas de Shopping Centers (26%), 13% em Centros Comerciais e 1% em Terminais de passageiros.
Quanto ao tipo de culinária predominante na amostra, 15% das redes são Variada/Brasileira, 13% Asiática, 11% Cafeteria/Chás, 10% Salgados e snacks, 8% Saudável, 6% Bolos e doces e 6% Hamburgueria/Sanduicheria. Pizzas, Peixes e frutos do mar e Grelhados/Churrasco são 5% cada.
GLP-1 já provoca mudanças nos cardápios
Entre as transformações recentes no comportamento do consumidor, o avanço dos medicamentos GLP-1, conhecidos popularmente como “canetas emagrecedoras”, já começa a produzir efeitos concretos no Food Service.
Segundo a Pesquisa ABF/GALUNION, 53% dos respondentes afirmam ter realizado adaptações nos cardápios em função do aumento do uso desses medicamentos. Igualmente, mais da metade (52%) destacaram as opções com apelo saudável, 48% passaram a oferecer opções mais leves e 36% evidenciaram pratos com maior teor de proteína.
“Os dados sobre os GLP-1 chamam muito a atenção porque mostram uma mudança de comportamento que já está chegando à operação. Quando mais da metade das redes pesquisadas declara ter feito alguma adaptação no cardápio, estamos diante de um movimento que merece ser acompanhado de perto. Não se trata apenas de reduzir itens, mas de entender novas ocasiões de consumo, tamanho de porções, composição do menu e o papel que a alimentação passa a ter na jornada desse consumidor”, destaca Simone Galante, fundadora e CEO da GALUNION.
Quanto às mudanças dos cardápios de uma forma geral, 61% das respondentes reorganizaram o menu para publicação online/digital, enquanto 56% reduziram itens do cardápio e 55% introduziram produtos de receita própria. O cenário indica uma busca por menus mais inteligentes, enxutos e adequados às novas necessidades e hábitos de consumo.
Rentabilidade e desafios
Além do delivery e das canetas emagrecedoras, crescimento, rentabilidade e evolução da gestão estão redesenhando a agenda estratégica do franchising de Alimentação. Ao mesmo tempo em que o segmento mantém indicadores positivos, as redes avançam também na gestão de supply chain, integram canais de venda e enfrentam desafios relacionados a pessoas, produtividade e margens, segundo a pesquisa ABF/Galunion.
O estudo revela que 94% das empresas pesquisadas registraram lucro no último ano, e que o segmento de Alimentação, individualmente o mais representativo do franchising brasileiro, apresentou crescimento de 15,6% em faturamento, que alcançou R$ 79,862 bilhões no ano passado em comparação com 2024. O número de lojas também avançou 3,1%, reunindo mais de 900 redes. No primeiro trimestre de 2026, frente ao mesmo período do ano anterior, o número de lojas cresceu 4,6%, enquanto o faturamento avançou expressivos 14,4%, somando R$ 19,594 bilhões.
De acordo com a Pesquisa Trimestral de Desempenho do Franchising feita pela ABF, referente aos primeiros três meses de 2026, Alimentação – Comercialização e Distribuição foi o segmento que apresentou maior faturamento (22%) no período pesquisado, somando R$ 7,2 bilhões. Já Alimentação – Food Service apresentou o quarto melhor desempenho (10,4%), com receita de R$ 12,4 bilhões.
A distribuição das margens reforça o cenário: entre as empresas pesquisadas, 66% registraram lucro acima de 10%, sendo que 34% obtiveram resultado líquido médio entre 10% e 15% – faixa que concentra a maior parcela das respostas – e 32% tiveram lucro acima de 15%.
Supply chain ganha protagonismo
Um dos movimentos que mais evidenciam o amadurecimento da gestão no foodservice é o avanço da agenda de supply chain. A gestão integrada de suprimentos, compras, distribuição e logística com fornecedores ganha relevância não apenas para garantir abastecimento e padronização, mas também para proteger margens, reduzir desperdícios, aumentar previsibilidade e dar maior agilidade à operação.
Essa evolução aparece entre as prioridades de investimento das redes para 2026: 69% das empresas pesquisadas pretendem investir em Suprimentos, Compras, Distribuição e Logística com Fornecedores. O movimento acompanha uma realidade de maior complexidade operacional, na qual escala, disponibilidade de produtos, custos, eficiência logística e capacidade de resposta precisam estar cada vez mais conectados.
A agenda também se relaciona diretamente à rentabilidade. Em um ambiente de custos mais pressionados e consumidor mais sensível a preço e valor, a eficiência da cadeia de abastecimento deixa de ser uma questão operacional e passa a ser parte central da estratégia do negócio.
Pessoas no centro dos desafios
Se o desempenho financeiro aparece como um ponto forte, a gestão de pessoas é apontada como a principal “dor” do segmento. A retenção de colaboradores foi citada por 87% dos respondentes como uma dificuldade. Para retê-los, entre as principais ações adotadas pelas marcas respondentes destacam-se a Premiação por metas (73%), Treinamentos operacionais e de gestão (71%) e a adoção de Novos benefícios (60%).
Outras práticas também foram mencionadas pelas respondentes: 44% oferecem bolsa-estudo, 42% empréstimo consignado e 40% fazem ajustes no formato de remuneração variável.
“O estudo reforça que a retenção de bons colaboradores é um dos principais desafios do segmento de Alimentação e que investir nas pessoas é essencial para sustentar o desempenho dos negócios. As diversas estratégias adotadas pelas redes mostram que elas estão buscando valorizar, desenvolver e engajar suas equipes. Ao mesmo tempo, a tecnologia pode ser uma grande aliada nesse processo, ao simplificar rotinas, apoiar a capacitação e aumentar a produtividade das equipes”, avalia Bruno Gorodicht, coordenador da Comissão de Foodservice da ABF.
Os treinamentos realizados pelas redes estão fortemente concentrados na operação (92%), abertura de lojas (87%), vendas e atendimento (82%) e delivery (81%). Já temas relacionados a novas tecnologias e inteligência artificial aparecem em apenas 26% das respostas, sinalizando uma oportunidade de ampliar o uso dessas ferramentas para além da comunicação e do marketing.
Expansão, multifranqueados e novas oportunidades
A expansão das redes pesquisadas está cada vez mais associada à busca por modelos mais enxutos, flexíveis e adaptáveis a diferentes contextos de consumo e localização. Entre os formatos considerados mais interessantes pelas redes estão os pontos de venda avançados/quiosques (50%), as lojas em lugares não tradicionais (39%) e as lojas de menu reduzido (37%). O movimento sinaliza uma estratégia de crescimento que vai além da simples multiplicação de unidades e busca combinar presença de marca, potencial de vendas e eficiência operacional.
A adoção desses formatos permite às redes explorar novas oportunidades de mercado e ampliar a capilaridade, inclusive em locais com características distintas dos tradicionais pontos de venda. Modelos menores e operações com menu reduzido também podem contribuir para uma estrutura operacional mais ágil, enquanto pontos de venda avançados e quiosques ampliam as possibilidades de presença em diferentes ambientes e ocasiões de consumo. Aqui, a expansão exige maior capacidade de adaptação sem comprometer identidade, padrões e a experiência da marca.
Os multifranqueados também ocupam posição relevante nessa estratégia de crescimento. Entre as redes respondentes, 68% deles são multimarcas e 21%, monomarca. O estudo aponta, ainda, que 59% das marcas respondentes priorizam a expansão por meio de multifranqueados.
A preferência por esse perfil de operador reforça a importância de parceiros com capacidade de gestão e experiência para conduzir múltiplas unidades, especialmente em um ambiente no qual as redes avançam para novos formatos, mercados e regiões.
Mais do que ampliar o número de operações, a expansão por meio de multifranqueados pode favorecer uma gestão mais integrada da rede e a disseminação de práticas de operação, gestão e desempenho entre unidades. O desafio, nesse contexto, é assegurar que o crescimento venha acompanhado de consistência na execução e capacidade de manter os padrões da marca em uma estrutura cada vez mais ampla e diversificada.
Para Simone Galante, “a nova fronteira da expansão não é abrir mais lojas, é abrir com operadores mais preparados, em modelos mais resilientes e com maior disciplina de execução”.
O conjunto dos resultados da Pesquisa aponta para uma mudança importante na agenda estratégica das redes de foodservice. Depois de um período marcado pela expansão e pela multiplicação dos canais de venda, o desafio passa a ser crescer com produtividade, eficiência e rentabilidade, apoiado por uma operação cada vez mais integrada. Supply chain mais estruturado, tecnologia aplicada à operação, gestão de pessoas, inteligência sobre os canais e capacidade de adaptação a um ambiente de custos mais complexo ganham peso nas decisões.
“O foodservice está diante de uma transformação que combina crescimento e maior complexidade. O consumidor mudou, os canais mudaram e as redes estão atentas para acompanhar esse movimento com velocidade, sem perder eficiência. O que vemos na Pesquisa é justamente essa transição: o segmento que já cresce com maturidade precisa avançar ainda mais na transformação de dados, tecnologia, sustentabilidade e conhecimento do consumidor em maior produtividade e valor para todo o seu ecossistema”, observa Tom Moreira Leite, presidente da ABF.
Para 2026, a sofisticação dos canais e da gestão de clientes tende a avançar. Entre as redes pesquisadas, 81% afirmam que seus investimentos estarão concentrados em Marketing, Fidelidade e Relacionamento com o Cliente; 69% em Suprimentos, Compras, Distribuição e Logística com Fornecedores; e 56% no uso de IAs disponíveis no mercado para gestão do conhecimento interno. Além disso, 95% das redes pretendem lançar novos produtos este ano.
O conjunto desses movimentos mostra que a agenda de inovação do foodservice está cada vez mais ligada à integração entre áreas. Da cadeia de abastecimento ao relacionamento com o consumidor, passando por tecnologia, com o avanço da IA, dados, pessoas e desenvolvimento de produtos, as redes de franquias de Alimentação buscam construir operações capazes de responder mais rapidamente ao mercado.