*Charles Holland
“Temos mercado consumidor, território, recursos, talento empresarial e posição estratégica. O que falta é planejamento estratégico, coordenação, governança regulatória, capacidade de execução e credibilidade”
Em outubro de 2026, o país escolherá presidente, governadores, senadores e deputados. Será mais uma oportunidade de reorganizar prioridades nacionais. Para aproveitá-la, é fundamental que o debate eleitoral recupere algo que o Brasil já teve e perdeu: planejamento.
Nos anos de Juscelino Kubitschek (1956–1960), o País apresentou um plano detalhado de governo, com metas, cronograma e responsáveis. O resultado foi a execução do maior programa de infraestrutura da nossa história recente. Entre 1968 e 1973, o Brasil voltou a apresentar taxas de crescimento acima de 10% ao ano, impulsionado por investimentos coordenados em energia, logística e indústria. Eram períodos com erros e acertos, mas havia uma característica em comum: capacidade de execução.
Nas últimas quatro décadas, o país praticamente abandonou a prática de formular grandes planos nacionais com metas mensuráveis. Crescemos pouco, investimos pouco, perdemos competitividade industrial e vimos o Estado aumentar de tamanho sem aumentar sua eficiência. Em vez de elevar nossa capacidade produtiva, ampliamos carga tributária, burocracia, direitos não republicanos e insegurança jurídica.
A Reforma Tributária aprovada recentemente é mais um exemplo da falta de pragmatismo operacional: entre 2026 e 2032, o país conviverá simultaneamente com o sistema antigo e o novo, impondo às empresas o custo de manter duas contabilidades tributárias em paralelo por sete anos. O custo burocrático será gigantesco, sobretudo para o setor produtivo.
O futuro governo eleito, iniciando em 2027, precisará rever a reforma tributária, entre outras medidas, para viabilizar planos ambiciosos de investimentos e de obras pelo setor privado, descrito logo mais adiante. O Brasil precisa ter uma carga tributária competitiva, em torno de 25%, para atrair investimentos maciços.
O ponto crítico é que as eleições brasileiras deixaram de ser um processo de apresentação de planos de governo. Partidos e candidatos quase nunca divulgam metas, prioridades, quadros técnicos ou compromissos executáveis. Governam depois “como der”. Isso reduz a previsibilidade institucional, afasta investimentos e limita nossa capacidade de transformar oportunidades em riqueza produtiva.
O Brasil pode atrair, entre 2027 e 2030, algo da ordem de US$ 5 trilhões em novos investimentos e financiamentos, com potencial de transformar o País em um grande canteiro de obras. Essa mobilização poderia se distribuir entre quatro eixos:
1- Infraestrutura nacional estratégica: energia, saneamento, logística, portos, ferrovias, digitalização e segurança de fronteiras.
2 – Infraestrutura e projetos estaduais: mobilidade urbana, saúde, segurança, reurbanização e educação profissionalizante.
3- Investimentos corporativos.
Para atrair investimentos e financiamentos acima, é necessário fortalecer bem com recursos humanos e financeiros a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e todas as entidades reguladoras. E fazer a reforma administrativa profunda necessária para dar credibilidade e confiança para atrair os investimentos e financiamentos. Se os eleitores aprovarem nas urnas os pleitos dos planos detalhados de governo pela coligação eleita em outubro de 2026, com as medidas necessárias aqui mencionadas, a reforma administrativa tão necessária, postergada por mais de 20 anos, será feita, sem grandes resistências.
Temos mercado consumidor, território, recursos, talento empresarial e posição estratégica. O que falta é planejamento estratégico, coordenação, governança regulatória, capacidade de execução e credibilidade.
Por isso, proponho que as coligações partidárias que pretendem disputar a Presidência apresentem até maio de 2025 planos detalhados de governo, com:
– metas mensuráveis para quatro anos;
– reformas necessárias e sua sequência;
– fortalecimento da Comissão de Valores Mobiliários e agências reguladoras, alinhadas para captação de recursos;
– modelo de atração de inteligência, talentos, capital nacional e estrangeiro;
– prioridades de investimento por Estado;
– cronograma físico-financeiro;
– indicadores de monitoramento.
Se queremos reinserir milhões de brasileiros no mercado de trabalho, elevar a produtividade, reduzir a violência, ampliar oportunidades e reconstruir o orgulho nacional, não há outro caminho: precisamos voltar a ser um país capaz de planejar e executar.
O Brasil depende apenas de nós – e do seu voto que será depositado nas urnas.
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