Em entrevista ao Diário do Comércio, o presidente da Associação Paulista de Supermercados fala sobre o fim da 6×1 e seus efeitos em um setor que tem 35 mil vagas abertas que não conseguem ser preenchidas
O setor supermercadista atravessa um momento de desafios, marcado pela alta taxa de juros, atualmente em 14% ao ano, pela dificuldade de encontrar mão de obra e pelas incertezas em torno do fim da escala 6×1. Ao mesmo tempo, grandes empresas do segmento, como o Grupo Pão de Açúcar, enfrentam dificuldades financeiras e tentam renegociar dívidas bilionárias.
Apesar do cenário de incertezas, o setor se mantém relevante na economia brasileira. Os supermercados respondem por 9,02% do PIB nacional e somam mais de 439 mil lojas espalhadas pelo país. Em 2025, o faturamento das redes supermercadistas ultrapassou R$ 1,145 trilhão, segundo o Ranking Abras 2026.
O desempenho do setor, no entanto, também tem sido influenciado pelas mudanças nos hábitos de consumo dos brasileiros. Embora os consumidores estejam frequentando mais os supermercados, o volume de compras tem recuado. Entre os fatores que ajudam a explicar esse movimento está a busca por hábitos mais saudáveis e o avanço das chamadas canetas emagrecedoras, que têm alterado o consumo de determinadas categorias de alimentos e bebidas.
Além disso, a falta de mão de obra é uma constante preocupação do setor, que possui cerca de 35 mil vagas disponíveis apenas no estado de São Paulo. Para entender o atual momento do setor, o Diário do Comércio conversou com Erlon Godoy Ortega, presidente da Associação Paulista de Supermercados (APAS), durante visita ao líder do associativismo, Alfredo Cotait, na sede da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Confira:
Diário do Comércio – Como o setor supermercadista tem lidado com a falta de mão de obra qualificada?
Erlon Godoy Ortega – Nosso desafio não é encontrar mão de obra qualificada, é encontrar mão de obra. Nós qualificamos esses funcionários; esse é um dos nossos menores problemas. Está muito complicado achar mão de obra. Temos 35 mil vagas no estado de São Paulo que não conseguimos preencher. Em 2025, tivemos um saldo positivo de 25 mil, mas ainda faltam 35 mil vagas, e as discussões nacionais têm influenciado essa dificuldade.
O que o senhor acredita que pode ser feito para reverter essa situação?
Ortega – O primeiro ponto é ter uma calibragem entre programas sociais e emprego. Gostaríamos que houvesse essa calibragem, pois uma parte dessas pessoas que são assistidas por programas sociais já pode vir para o mercado de trabalho e preencher essas vagas.
Outro ponto é a modernização das leis trabalhistas, por meio da jornada livre, pois os jovens são um terço da nossa força de trabalho. Então, temos 700 mil empregos diretos e cerca de 300 mil indiretos, ou seja, 1 milhão de empregos no estado de São Paulo. Dessas vagas, cerca de 333 mil são ocupadas por jovens de até 25 anos, e esses jovens não querem mais o velho modelo de trabalho, ou seja, o modelo engessado, seja de 40 ou 44 horas. Esse jovem quer ser empreendedor pela manhã, trabalhar no mercado à tarde, estudar por um período durante a noite. Ele quer essa flexibilidade.
A discussão que acontece hoje no Congresso Nacional não viabiliza essa modernização, mas sim discute se eu engesso mais ou menos. Então, enxergamos esses dois pontos para acabar com esse apagão de mão de obra.
O presidente da República se encontrou com Davi Alcolumbre, presidente do Senado, para acelerar o fim da escala 6×1. Como o senhor enxerga isso?
Ortega – É preciso acelerar a modernização para que o jovem possa escolher, mas não apenas o jovem. Nós temos 10% da nossa força de trabalho formada por pessoas com mais de 50, 60 anos, e elas também querem uma jornada diferente, às vezes uma jornada mais compacta para complemento de renda, e essa pessoa também não vai poder trabalhar se tiver uma jornada engessada.
A discussão do fim da escala 6×1 deve ser pautada. Não é uma discussão de críticas, mas sim da oportunidade que estamos tendo de ter dois caminhos: para quem deseja o trabalho engessado e para quem deseja a jornada livre, com todos os seus direitos garantidos, como a PEC 12/2026, conhecida como PEC do Trabalho Flexível. Se tivermos as duas opções, é algo positivo. Porém, caso seja apenas a redução para 40 horas, eu vejo a discussão com muita preocupação.
Como a aprovação do fim da escala 6×1 afetará o setor supermercadista?
Ortega – Os supermercados terão um aumento de custo de 8% a 10% na folha de pagamento, mas o aumento de custo será de toda a cadeia, como o agronegócio e a indústria, o que irá se refletir no supermercado, além do nosso aumento de custo. Além disso, se eu diminuir as horas trabalhadas, preciso fechar as lojas ou contratar mais pessoas. Contratar quem? Se nem as 35 mil vagas disponíveis atualmente conseguimos preencher. A partir do momento em que eu fecho os estabelecimentos aos sábados e domingos para cumprir a escala, eu prejudico os consumidores, mas principalmente os pequenos e médios negócios. O grande negócio, com 100 funcionários, vai abrir com 90 funcionários, mas o pequeno negócio, com cinco funcionários, terá maior dificuldade.
O supermercado é um repassador. Tudo que é colocado de custo entra na planilha de formação de preço e vai para a ponta. Quem paga é o consumidor. O supermercado em São Paulo é extremamente descentralizado, e a concorrência é muito grande. Em lugares como Chile e Argentina, três redes representam 50% do mercado. Aqui, são necessárias 1.000 redes. Por isso, ações que só vão prejudicar os pequenos e médios são terríveis.
Recentemente entraram em vigor as novas regras da NR-1, que colocam riscos psicossociais no radar das empresas. Como o setor supermercadista enxerga as novas exigências?
Ortega – As novas regras são vistas com preocupação devido à falta de clareza, tanto que houve uma decisão do STF suspendendo as multas. Claro, tudo que vai beneficiar a saúde mental dos trabalhadores é bem-vindo pelo setor. No entanto, é muito ampla a questão de estar doente e definir se isso está ligado ao trabalho. Então, é preciso ter regras mais claras para que aquela pessoa realmente seja protegida.
Qual será o maior desafio para o próximo presidente do Brasil?
Ortega – O principal desafio é diminuir a taxa de juros. Tem que ser melhor produzir do que deixar o dinheiro no banco. Porque, muitas vezes, se esse supermercadista vender determinado patrimônio e aplicar o dinheiro, ele tem mais rentabilidade do que no dia a dia da operação. Nós temos que ter uma relação de juros baixos e que o governo não fique nas costas dos empresários. Então, acho que o maior desafio são essas questões estruturais: o governo cuidar do que é realmente responsabilidade dele.
Quais são os principais desafios do setor supermercadista no estado de São Paulo?
Ortega – Vivemos uma economia sem um crescimento expressivo, então, não temos um crescimento expressivo em volume. Crescemos em reais um pouco acima da inflação, mas existe uma certa retração de volume. Isso se deve a alguns pontos, por exemplo: hábitos mais saudáveis e o efeito das canetas emagrecedoras, que têm transformado o consumo brasileiro, reduzindo o consumo de carboidratos, como arroz e macarrão, menos bebidas alcoólicas, consumindo mais proteínas e bebidas sem glúten. Esse é um desafio com o qual estamos nos adaptando.
Além disso, as guerras, como entre o Irã e os Estados Unidos, afetam o petróleo, deixando o cenário instável, principalmente em relação ao frete, pois somos um país sobre rodas. Esse tem sido nosso desafio em relação ao crescimento e o que tem feito com que andemos de lado.