O avanço da inteligência artificial (IA) no setor financeiro tem facilitado o acesso ao crédito para milhões de brasileiros, especialmente entre os mais jovens. No entanto, especialistas alertam que a mesma tecnologia que agiliza a concessão de empréstimos e cartões também pode contribuir para o aumento do endividamento, ao utilizar dados comportamentais para direcionar ofertas financeiras cada vez mais personalizadas.
Matéria do jornal Folha de S. Paulo de hoje, 02 de junho, de autoria de Ícaro Novais, Lívia Goulart e Samara Almeida, mostra que, segundo dados da Serasa, cerca de 9,3 milhões de brasileiros entre 18 e 25 anos estão inadimplentes. O número evidencia um cenário preocupante para a chamada geração Z, que cresceu em um ambiente totalmente digital e tem maior exposição a produtos de crédito oferecidos por bancos e fintechs.
Um dos casos citados é o de um estudante de farmácia de 23 anos, morador de Florianópolis, que acumulou mais de R$ 4 mil em dívidas após receber limites de crédito muito superiores à sua renda. Com salário de aproximadamente R$ 560 mensais, ele obteve R$ 2 mil de limite no cartão de crédito e R$ 500 no cheque especial. Sem compreender plenamente o funcionamento dos juros e das linhas de crédito, passou a utilizar os recursos para despesas do dia a dia. Posteriormente, contratou um empréstimo de R$ 800, parcelado em 36 vezes, que elevou sua dívida para mais de R$ 3 mil. Após perder o emprego, não conseguiu manter os pagamentos e teve o nome incluído nos cadastros de inadimplentes.
Especialistas afirmam que a inteligência artificial tem desempenhado papel central nesse processo. Pesquisa da consultoria PwC mostra que 67% das instituições financeiras digitais brasileiras já utilizam IA em processos de automação e operações internas, enquanto 52% empregam a tecnologia no desenvolvimento de novos produtos.
Além de analisar dados financeiros tradicionais, os algoritmos passaram a monitorar hábitos de navegação, comportamento de consumo e interações digitais para avaliar perfis de clientes e direcionar ofertas de crédito. Para estudiosos do tema, essa prática aumenta a exposição dos consumidores, especialmente dos mais jovens, a estímulos constantes de consumo e endividamento.
A professora de Direito Econômico da Universidade de São Paulo (USP), Maria Paula Dallari Bucci Bertran, avalia que os sistemas de IA identificam momentos de vulnerabilidade financeira dos usuários e utilizam essas informações para ofertar crédito por meio de publicidade direcionada.
Educadores financeiros também chamam atenção para a influência da publicidade digital personalizada. Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, as plataformas digitais conseguem identificar comportamentos de consumo e direcionar anúncios que incentivam novas compras, financiamentos e empréstimos, muitas vezes sem uma avaliação aprofundada da capacidade de pagamento do consumidor.
Por outro lado, representantes do setor financeiro defendem que a inteligência artificial tornou os processos de análise de crédito mais rápidos e eficientes, ampliando o acesso da população a serviços financeiros antes restritos. Eles argumentam que a tecnologia permite compreender melhor o comportamento dos clientes e oferecer produtos mais adequados ao seu perfil.
Dados do Banco Central reforçam a preocupação com o avanço da inadimplência entre os jovens. O Relatório de Cidadania Financeira de 2025 mostra que as taxas de atraso em pagamentos são mais elevadas entre pessoas de 15 a 29 anos do que nas demais faixas etárias. O cenário é agravado pelo crescimento do acesso ao crédito digital e pela facilidade de contratação de produtos financeiros por meio de aplicativos.
Especialistas defendem que o avanço tecnológico deve ser acompanhado de iniciativas de educação financeira, transparência na concessão de crédito e regulamentação adequada do uso de algoritmos, para evitar que a ampliação do acesso aos serviços financeiros resulte em um aumento ainda maior do endividamento da população jovem.