Corrida pela inteligência artificial avança no setor varejista e se mescla a necessidade de conectar tecnologia as dores reais do negócio
Entre os últimos dias 10 e 12 de janeiro, a NRF 2026 ofereceu, direto de Nova York para o mundo, o termômetro das principais prioridades tecnológicas, gerenciais e culturais para o varejo contemporâneo. E, nessa edição, o que tivemos de mais impactante foi justamente um novo marco, um novo ponto de inflexão na forma como o setor encara a inovação – e como essa visão conecta processos, pessoas e lideranças.
O principal exemplo nesse sentido envolve a corrida dos investimentos em Inteligência Artificial (IA) no segmento varejista: se, em edições anteriores, a IA foi tratada como uma promessa de longo prazo, o evento deste ano revelou um deslocamento fundamental com foco na aplicabilidade e na resolução de dores concretas de negócio.
Esse movimento é essencial quando pensamos que 90% dos varejistas pretendem aumentar os orçamentos de IA em 2026, de acordo com o relatório “Estado da IA no Varejo e em Bens de Consumo Embalados“, divulgado este ano pela Nvidia.
O que a NRF deixou como mensagem é que o foco desses investimentos deve, cada vez mais, migrar para questões objetivas, como a automação de processos repetitivos e redução de erros operacionais que gerem maior previsibilidade financeira e ROI sobre os recursos destinados à tecnologia. Em outras palavras: mais do que futurismos ou passes de mágica, os varejistas esperam colher (e comprovar) resultados de modo ágil com a inovação.
Transformações, desafios e lacunas
Olhando para a realidade brasileira, temos, concomitantemente, oportunidades e lacunas críticas que precisam ser analisadas com critério pelos varejistas.
Na esfera dos desafios, o fato é que muitos varejistas ainda demonstram dificuldade em definir por onde começar seu processo de digitalização, muitas vezes buscando a tecnologia sem antes identificar como uma determinada solução irá atacar dores reais do seu negócio.
Nessa jornada, é fundamental ser seletivo e estratégico, priorizando parceiros confiáveis com experiência comprovada para, por exemplo, mitigar os riscos de custos não previstos em projetos de software.
Outra recomendação é focar em projetos escaláveis que começam pequenos e crescem conforme os resultados vão avançando. Uma estratégia eficiente envolve a realização de Provas de Conceito (PoCs) na base de dados real do cliente, em períodos de 4 a 12 semanas, nas quais o fornecedor assume o investimento inicial para provar o valor da solução antes da assinatura do contrato.
Esse modelo oferece mais insumos para o varejista em termos de previsibilidade financeira e controle de custos, sempre com foco em garantir retorno no menor tempo possível, dada a necessidade de diferenciação competitiva em um mercado de alta concorrência.
Outro ponto fundamental é a preparação humana, dos times às lideranças, pois tecnologia de ponta sem pessoas capacitadas para explorá-la significa cair no gargalo da transformação digital sem uma cultura que a sustente. Nesse mesmo sentido, é preciso fortalecer processos orientados por dados que tragam real visibilidade para os gestores sobre os pontos de melhoria e de eficiência de sua operação, e possam nutrir dos ERPs aos sistemas de IA.
Dentro deste quadrante, o mercado enfrenta um gap: segundo estudo da PwC, embora a maioria das empresas pretenda aumentar investimentos em IA, somente 49% afirmam que suas equipes estão preparadas e 46% relatam insuficiência de dados para sustentar os projetos.
Assim, para sair do discurso é preciso não só formar talentos e líderes, mas transformar, definitivamente, a cultura dos negócios para um modelo realmente guiado por indicadores sólidos e monitoramento contínuo da eficiência de processos.
No copo meio cheio deste debate, o Brasil traz vantagens competitivas relevantes, incluindo o padrão de excelência logística alcançado nos últimos anos, que o coloca à frente de grandes mercados globais, e a abertura do varejo nacional para novas soluções que estão potencializando a experiência do consumidor.
Com esse olhar, o País pode se posicionar com protagonismo em outras tendências analisadas na NRF 2026, como a oferta de serviços personalizados, modelos imersivos de compra e a consolidação de estruturas phygital, com clientes utilizando aplicativos dentro das lojas para localizar produtos ou garantir preços competitivos.
Nesta rota, a tecnologia atua como a espinha dorsal, mas exige do varejo uma postura pragmática: o sucesso não virá da adoção de ferramentas por modismo, mas pela capacidade de integrar IA e dados em operações que, de fato, melhorem a margem das operações e a experiência do cliente. Em tempo de mudanças, uma ideia que segue central é a dos resultados que sustentam o discurso e o posicionamento das empresas.
Waldir Bertolino é vice-presidente e country manager da Infor Brasil e South Latam.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Fonte : IA no varejo: menos promessa, mais resultado – Mercado&Consumo