Caio Camargo
Há bastante tempo eu venho defendendo que o principal problema do endividamento das famílias brasileiras não está apenas nos juros, e talvez nem principalmente na inflação.
A pesquisa do IBEVAR – Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo com a FIA Business School, repercutida pelo UOL – Universo Online, ajuda a dar números a algo que já vinha aparecendo no dia a dia da economia real: as bets passaram a ter peso maior sobre o endividamento das famílias do que os fatores tradicionalmente colocados no centro desse debate.
Segundo o estudo, o coeficiente associado às apostas foi de 0,2255, contra 0,0440 do crédito sobre a renda e 0,0709 dos juros ao consumidor – ou seja, bets pesam 5x mais do que crédito e 3x mais do que juros.
Esse ponto, para mim, é crucial, e o sobre o que já falei aqui em posts no passado: Enquanto economistas e políticos seguem presos à discussão sobre juros, ignoram um traço antigo do comportamento do consumidor brasileiro: muita gente não compra taxa, compra parcela. O problema é que uma parte crescente da renda nem está indo para consumo, investimento ou organização da vida financeira. Está sendo drenada cada vez mais pela promessa de ganho rápido.
A mudança ficou mais forte depois da legalização em 2018 e da popularização das plataformas a partir de 2019. Em 2025, a receita bruta das bets autorizadas chegou a R$ 37 bilhões, e cerca de 7,5 milhões de pessoas admitiram ter comprometido parte da renda com jogos.
Isso ajuda a explicar por que, mesmo em uma economia com aparência de maior estabilidade (aumento de massa salarial + emprego), o consumo não reagia como muitos esperavam. O varejo já sentiu esse efeito no caixa há tempos, tanto no ticket médio e no faturamento. Não se trata apenas de uma família que perdeu controle do orçamento. Trata-se de renda que deixa de circular no comércio, nos serviços e na produção.
Também por isso venho defendendo há muito tempo menos propaganda e menos incentivo midiático às apostas. O discurso de “aposta responsável”, na minha opinião, é insuficiente diante de um mercado que cresce em cima de impulso, ilusão de mobilidade instantânea e forte dependência publicitária de setores como esporte e mídia.
A essa altura, a discussão sobre bets já deixou de ser apenas moral ou comportamental. Ela é econômica, social e produtiva. Quanto dessa renda, hoje capturada por apostas e dívidas associadas a elas, poderia estar movimentando consumo, emprego e atividade real no país?