Mais do que vencer, é tempo de sobreviver a 2026

 Fernando Moulin

O avanço do endividamento das famílias brasileiras produz efeitos cada vez mais claros e impactantes no varejo. Com parte relevante da renda comprometida com parcelas, financiamentos e pagamento de contas básicas, e milhões de consumidores passaram a rever prioridades e cortar gastos considerados “secundários”. Isso reduz o espaço para compras por impulso, diminui o ticket médio e pressiona empresas de diferentes segmentos de atuação.

Hoje, mais de 80% das famílias brasileiras convivem com algum tipo de dívida, segundo dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), divulgada pela CNC (Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo). Esse cenário limita o consumo e faz com que o orçamento doméstico fique concentrado em despesas essenciais, como alimentação, moradia, transporte e contas fixas. Quando sobra pouco dinheiro no fim do mês, itens antes comuns deixam de entrar no carrinho.

Produtos de maior valor agregado costumam sentir esse impacto primeiro. O consumidor troca marcas premium por versões mais baratas, reduz compras de alguns itens perecíveis e corta iogurtes, queijos especiais e produtos não indispensáveis. Esse movimento afeta diretamente supermercados, atacadistas, lojas especializadas e toda a cadeia de abastecimento.

Além disso, o parcelamento, que durante anos sustentou boa parte das vendas no Brasil, perdeu força como motor de consumo. Muitas famílias já estão com limite do cartão comprometido ou enfrentam dificuldades para assumir novas prestações. Mesmo quando a compra é oferecida sem juros, o medo de se enrolar ainda mais financeiramente pesa na decisão.

Juros altos e crédito restrito

O cenário fica ainda mais delicado quando os juros permanecem elevados. Nesse ambiente, o custo das parcelas sobe e o crédito fica mais seletivo. O consumidor que antes parcelava compras em 10 ou 12 vezes encontra menos opções, enquanto o varejista enfrenta custos maiores para financiar essas vendas.

Para evitar repassar esse peso ao preço final, muitas empresas reduziram a quantidade de parcelas oferecidas. Em vez de longos financiamentos, algumas redes limitam as compras em três, cinco ou seis vezes ou exigem valor mínimo para parcelamento. Isso reduz o acesso ao consumo, especialmente de  bens duráveis, como eletrodomésticos e eletrônicos.

O Pix parcelado surge como alternativa, mas ainda passa por fase de adaptação. Muitos consumidores continuam dependentes do cartão de crédito ou do crédito rotativo para organizar o fluxo de caixa. Em famílias já pressionadas por todos os lados, novas modalidades não resolvem, sozinhas, a falta de renda disponível.

Outro efeito importante aparece no calendário de compras. Há consumidores que concentram gastos logo após receber salário e praticamente interrompem as compras no restante do mês. Para o varejo, isso gera fluxo irregular nas lojas e dificulta o planejamento de estoque, promoções e metas de vendas.

Quais varejistas tendem a se sair melhor

Em momentos de renda pressionada, empresas com proposta clara de preço competitivo costumam ganhar espaço. Redes de atacarejo, formatos cash and carry e marcas focadas em custo-benefício, geralmente, atraem consumidores em busca de economia. Mesmo assim, o próprio segmento também enfrenta desafios quando a pressão financeira se prolonga.

Na outra ponta, o varejo de luxo costuma mostrar maior resiliência. Consumidores de alta renda sentem menos os efeitos do crédito caro e, em alguns casos, ainda se beneficiam de juros elevados por terem recursos aplicados. Isso mantém a demanda em nichos premium, enquanto o varejo popular enfrenta maior sensibilidade ao preço. Para reagir, muitas empresas ampliam promoções agressivas, programas de fidelidade e carteiras próprias de crédito. Ofertas como “leve 3, pague 2”, descontos para clientes recorrentes e retorno do crediário aparecem como estratégias para preservar vendas e relacionamento.

No curto prazo, o varejo brasileiro tende a conviver com um consumidor mais cauteloso, seletivo e sensível ao preço. Enquanto o endividamento seguir alto, o setor precisará equilibrar margem, crédito e promoções para manter a competitividade e preservar a demanda.

Desafios adicionais, como as inúmeras mudanças trazidas pela Inteligência Artificial e pelas novas tecnologias, questões relacionadas à liderança e à gestão de pessoas, incluindo recrutamento e seleção de novos colaboradores, além dos elevados custos de insumos, exponencializados pela guerra no Irã, vão complementando um delicado cenário.

O desafio nesse duro ano de 2026, para muitos, não é mais sobre como manter crescimento acelerado; mas sim e tão somente como sobreviver com sustentabilidade e realizar a transição efetiva rumo a tempos melhores.

*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.

Fonte: https://mercadoeconsumo.com.br

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