Ao menosprezar o impacto transformador do investimento prioritário nas crianças, o Brasil condena gerações à dependência do Estado, à demagogia fácil e a um futuro medíocre
Por Notas & Informações
“O tempo é o mágico de todas as traições”, escreveu Guimarães Rosa num dos contos reunidos no livro Primeiras Estórias. O escritor mineiro traduzia ali o conflito perene entre o que é tido como melhor no momento presente e as necessidades do futuro. A frase inspira perguntas relevantes ao Brasil: que peso tem o futuro nas decisões tomadas hoje? Até onde sacrificar o presente em nome de um futuro supostamente mais auspicioso? Quais os riscos de jogar para o futuro a conta de um presente de aparente bonança, impondo demandas adicionais às gerações seguintes? São perguntas cujas respostas definem a condição de indivíduos, famílias e nações. No caso do Brasil, suas lideranças parecem satisfeitas em sermos eternamente o “país do futuro”. Aqui, enquanto é dificílimo alterar as regras da Previdência Social para fazê-la caber no Orçamento, frequentemente falta dinheiro para creches e livros didáticos nas escolas. Ou seja, o passado tem dinheiro garantido; já o futuro, que espere dias melhores.
Recentemente, por exemplo, o Ministério da Educação informou que será impossível comprar todos os livros necessários para o próximo ano. Por falta de verbas, segundo alegou, ficarão de fora do Programa Nacional do Livro Didático obras de História, Geografia, Ciências e Artes do ensino fundamental. Não é possível deixar de atribuir essa situação a uma indiferença generalizada em relação às crianças – que não votam. Não falta dinheiro, como mostram os bilionários recursos destinados ao financiamento partidário e a emendas parlamentares que enchem os cofres de prefeituras para bancar obras eleitoreiras. O que falta é imaginar como será o futuro de crianças mal e porcamente alfabetizadas.
Um estudo recente do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social mostrou que a probabilidade de que um brasileiro que nasceu pobre morra pobre é alta. Menos de 2% das crianças cujos pais estão entre os 50% mais pobres alcançarão a renda dos 10% mais ricos, e o mais provável é que 66% delas ainda estejam na mesma faixa quando chegarem à fase adulta. Registre-se que, segundo o IBGE, metade das crianças vive em situação de pobreza (ante menos de 15% entre os idosos, que votam). Ou que apenas 40% das crianças de 0 a 3 anos estavam matriculadas na creche no ano passado.
Enquanto isso, o Brasil gasta proporcionalmente mais com idosos, embora a vulnerabilidade infantil seja maior e o retorno social de investir na infância seja superior. Tempos atrás, ao analisar o Benefício de Prestação Continuada (BPC), concedido a idosos e pessoas com deficiência cuja renda mensal seja igual ou inferior a 1/4 do salário mínimo, o economista Pedro Fernando Nery, colunista do Estadão, advertiu: trata-se do programa assistencial mais caro do Brasil. Outro colunista deste jornal, o economista Fabio Giambiagi, vem alertando há anos para o avanço insustentável das despesas com aposentadoria. O gasto com o INSS, que era de 2,5% do PIB em 1988, chega hoje a cerca de 8%.
O envelhecimento acelerado complica tudo. Os idosos representavam 4% dos brasileiros em 1980 e atualmente já são 10%. Enquanto isso, a taxa de fecundidade caiu de 4 filhos para 1,6 no período. Tais mudanças resultam no fim do chamado bônus demográfico – quando a população jovem e adulta atinge o seu auge e o número de idosos ainda é pequeno, num processo que costuma impulsionar a produtividade. O Brasil não educou adequadamente essa população jovem, desperdiçou seu bônus demográfico e o ônus chegará sem tardança. Em pouco mais de cinco anos, a população com idade produtiva deve começar a cair, aumentando os dependentes – crianças, adolescentes e idosos.
Essas mudanças etárias exigirão mais, e não menos, escolhas difíceis, com prioridade aos grupos de dependentes com maior poder de transformação futura. Mas seguimos menosprezando o investimento prioritário nas crianças e resistindo a realizar mudanças duras nas regras da Previdência. Com isso, condenamos gerações inteiras ao perverso ciclo de dependência do Estado, à demagogia fácil e a um futuro medíocre.
Fonte : https://www.estadao.com.br/opiniao/o-pais-do-futuro-do-preterito