Ao priorizar o conforto dos funcionários em detrimento do desempenho, a gestão de pessoas compromete a produtividade e enfraquece lideranças
Maria Candida Baumer*
Há um fenômeno perigoso e silencioso corroendo a produtividade das empresas brasileiras sob a bandeira da “gestão humanizada”. Em algum momento dos últimos anos, a área de Recursos Humanos se desviou de sua verdadeira vocação estratégica de gestão do trabalho e se transformou em uma espécie de fábrica de mimos corporativos e “sala de desabafo”. Substituímos a coragem do diagnóstico duro por um festival de dinâmicas de grupo, tapinhas nas costas, frases motivacionais e uma permissividade crônica que cobra cada vez menos entrega e tolera cada vez mais a ineficiência. A conta dessa fantasia politicamente correta chegou, e ela é altíssima.
Enquanto o RH se distrai organizando eventos fofos e tratando profissionais adultos como incapazes de lidar com a realidade do mercado, o cliente final, que é aquele que efetivamente paga as contas do negócio, continua sem ter um pingo de tolerância.
O consumidor não compra um produto ruim nem tolera um serviço mequetrefe só porque a equipe que o produziu estava em um momento de desmotivação ou precisava de mais tempo de reflexão. A competitividade exige entrega, rigor técnico e alinhamento com os objetivos de rentabilidade. Quando o RH se afasta dessa métrica para virar o departamento do “passa-pano”, ele não está humanizando a empresa; está acelerando a perda de seu poder de competição e destruindo o próprio ambiente que sustenta esses empregos.
Gestão de pessoas de verdade não é sobre fazer todo mundo se sentir confortável o tempo todo. É sobre ter a transparência e a firmeza necessárias para encarar diagnósticos difíceis, especialmente na alta liderança.
A maior parte dos desastres operacionais e das quedas nas margens de lucro não começa no chão de fábrica ou entre os analistas, mas no desalinhamento no C-Level, onde executivos com perfis incompatíveis ocupam posições cruciais e ninguém tem a coragem de apontar o problema. É preferível contemporizar, aplicar dinâmicas superficiais e abafar o ruído até que a empresa comece a dar prejuízo.
O verdadeiro respeito ao ser humano no ambiente de trabalho se dá por meio de regras claras, expectativas maduras e alocação precisa de talentos em posições nas quais suas fortalezas reais gerem resultados mensuráveis. Tratar o profissional com maturidade significa responsabilizá-lo por sua própria trajetória e por suas escolhas, em vez de incentivar uma cultura de coitadismo em que todos são vítimas e ninguém é responsável pelo resultado. O paternalismo enfraquece o indivíduo e incapacita a organização.
O RH precisa urgentemente resgatar seu assento à mesa estratégica do negócio. E isso não se faz pedindo licença para agradar, mas apresentando dados de rentabilidade, produtividade, turnover e mitigação de riscos à saúde e riscos operacionais.
É hora de abandonar o RH “fofo” e adotar uma gestão adulta, transparente e orientada por resultados reais. A sobrevivência das empresas depende de parar de afagar a ineficiência e começar, de fato, a gerir o potencial humano com a gravidade e o rigor que o mercado financeiro e os clientes exigem.
*Maria Candida Baumer é fundadora da People & Results