Opinião de Mercado
Já perdi a conta de quantas vezes vi marcas investindo milhões em tecnologia de ponta, estratégias de “experiência omnichannel” e campanhas de marketing arrebatadoras, enquanto clientes esperavam horas por um produto que estava “no estoque”, mas ninguém conseguia encontrar.
O varejo brasileiro tem uma obsessão perigosa por fórmulas mágicas. Enquanto isso, deixa escapar vendas todos os dias por não conseguir fazer o básico direito. Ao longo da minha trajetória no varejo, percebi um padrão: marcas que crescem de forma sustentável não são necessariamente as mais inovadoras. São as que dominaram a execução impecável do fundamental antes de tentar voar.
Existe uma hierarquia que não pode ser ignorada. Se o básico não está sendo bem feito, não adianta pular para a próxima etapa. É como construir um prédio: você não instala o heliponto antes de garantir que a fundação esteja sólida.
Os cinco pilares que mudam o jogo no varejo
1. Entrega no prazo
Parece básico demais para estar nesta lista? Exatamente por isso está aqui.
Quantas vezes você já comprou algo online com a promessa de “entrega em 3 dias” e ficou olhando na caixa de correio uma semana depois? Para que a entrega aconteça de forma consistente, lojas físicas e sistemas digitais precisam conversar. Quando essa integração falha, o cliente não culpa a “logística” — culpa a marca.
2. Devoluções e estornos
Trocar ou devolver não deve parecer um favor. É um direito — e deveria ser simples.
Marcas que complicam esse processo estão dizendo ao cliente: “não confiamos em você e não queremos seu dinheiro de volta”. Cada fricção aqui é uma certeza de que aquela pessoa não vai voltar.
3. Disponibilidade de produto
Não estou falando de ter infinitas opções. Estou falando de ter exatamente aquilo que você prometeu ter.
Um cliente que entra na loja ou acessa seu e-commerce e não encontra o produto básico do catálogo, não pensa “que azar”. Ele pensa “essa marca é desorganizada” e vai procurar o concorrente.
4. Organização do estoque
Aquela cena clássica: a vendedora desaparece por 15 minutos no estoque procurando o número 38 enquanto o cliente fica ali, olhando o relógio e perdendo o interesse.
Estoque bagunçado não é um “problema interno”. É um problema para o cliente que está esperando. E essa espera custa caro.
5. Treinamento
Sempre acreditei que é impossível cobrar excelência de quem não foi capacitado para entregá-la.
O vendedor não precisa ser um expert em moda ou conhecer todas as tendências da temporada, mas precisa entender profundamente o que a marca representa e como isso se traduz em valor para quem está na frente dele. Esse conhecimento não se copia de outras empresas — constrói-se internamente, com método e consistência.
O atendimento começa antes do “bom dia”
Na prática, atendimento de qualidade começa com algo ainda mais básico: um sorriso genuíno, um “bom dia” que soa verdadeiro e uma disponibilidade real para ouvir.
Foi seguindo essa lógica que estruturamos nossa operação na Wishin. Primeiro, garantimos que o atendimento funcionasse. Depois, oferecemos ferramentas adequadas. Só então passamos a cobrar resultados mais sofisticados, como conhecimento aprofundado de coleções e tendências de moda.
Não é apenas impressão. Os dados comprovam:
- 29% dos consumidores já abandonaram uma marca por uma única experiência ruim, seja online ou presencial (Pesquisa sobre Experiência do Consumidor da PwC 2025)
- 80% dos brasileiros esperam integração completa entre canais físicos e digitais em 2026 (Pesquisa Selbetti).
Quando o básico falha, não há campanha de marketing que salve.
Casos que provam o ponto
A Amazon não se tornou líder global vendendo produtos que ninguém mais tinha. Tornou-se líder porque fez chegar o que prometeu, quando prometeu, do jeito que prometeu.
A Zara só conseguiu criar experiências digitais sofisticadas porque antes resolveu sua logística e integração entre canais com disciplina cirúrgica.
Aqui no Brasil, quando revisamos os processos da Wishin e identificamos que a falta de clareza na comunicação estava afastando clientes, não inventamos nada revolucionário. Ajustamos o básico, e o impacto nas vendas foi imediato.
No varejo, a grande vantagem competitiva não está em fazer mais. Está em fazer excepcionalmente bem aquilo que é essencial, todos os dias, sem exceção.
Quando o básico está dominado, a excelência deixa de ser um discurso bonito em reunião de diretoria e passa a ser uma consequência natural, algo que o cliente sente na pele e que se reflete no caixa.
A pergunta que fica é: sua marca está correndo atrás da inovação ou ainda precisa acertar o que é fundamental?
Anna Shin é CEO e co-founder da Wishin.
*Este texto reproduz a opinião do autor e não reflete necessariamente o posicionamento da Mercado&Consumo.
Imagem: Envato