*Por Mariana Tahan Ralisch, Diretora de Marketing da Wake
O social commerce evoluiu tendo a confiança visual como um de seus principais pilares. Durante anos, criadores de conteúdo ganharam relevância pelo alcance de suas audiências, mas principalmente pela capacidade de reduzir a distância entre consumidor e produto. Reviews em vídeo, testes ao vivo, demonstrações práticas e conteúdos com aparência menos produzida ajudaram a transformar a experiência visual em um dos elementos centrais da decisão de compra.
Essa lógica, no entanto, começa a mudar com o avanço dos conteúdos produzidos por Inteligência Artificial.
Hoje, já é possível criar vídeos completos sem produto físico, sem gravação real e, em alguns casos, sem qualquer interação humana direta com o item apresentado. A IA consegue gerar rostos, vozes, cenários e demonstrações altamente realistas em poucos minutos e com baixo custo. À primeira vista, isso representa um ganho relevante de eficiência. Ainda assim, surge uma questão cada vez mais sensível: quando a representação se torna sofisticada demais, o público pode ter dificuldade em diferenciar uma demonstração autêntica de uma construção simulada.
O desafio não está na tecnologia em si. A Inteligência Artificial amplia a capacidade produtiva, acelera testes criativos, otimiza campanhas e permite uma escala de conteúdo antes inalcançável. O ponto de virada acontece quando a imagem deixa de funcionar como aproximação da realidade e passa a substituí-la como instrumento de persuasão.
No social commerce, a decisão de compra raramente se baseia apenas em atributos técnicos. O consumidor compra também a percepção de uso: alguém aplicando um cosmético, vestindo uma peça, testando um eletrônico ou incorporando determinado produto à rotina. Existe uma expectativa implícita de experiência real por trás daquele conteúdo, mesmo em contextos publicitários.
Quando essa mediação passa a ser totalmente simulada, surge uma nova camada de fricção. Afinal, quanto mais sofisticada a geração artificial se torna, mais difícil pode ser diferenciar uma demonstração autêntica de uma construção sintética.
Esse cenário ganha ainda mais relevância porque a influência digital sempre esteve associada à ideia de proximidade e experiência legítima. Quando um vídeo gerado por IA apresenta um cosmético com textura impecável, uma peça de roupa com caimento perfeito ou um eletrônico operando em condições idealizadas, cria-se uma expectativa que pode não se confirmar na prática. E essa frustração deixa de impactar apenas a conversão e passa a afetar confiança, recompra e reputação da marca.
Ao mesmo tempo, as plataformas também passam por uma transformação relevante. Os algoritmos de social commerce foram desenhados para priorizar volume, retenção e atenção. A Inteligência Artificial potencializa exatamente esses vetores, permitindo que creators e sellers produzam muito mais conteúdo em muito menos tempo. O resultado é um ambiente cada vez mais saturado por vídeos bem produzidos, porém mais homogêneos e menos verificáveis.
Em paralelo, o uso crescente de conteúdos gerados por IA nas redes sociais começa a gerar um efeito colateral importante: o público passa a desenvolver maior capacidade de identificar o que parece artificial. Quanto mais esse tipo de conteúdo se torna recorrente, mais o consumidor aprimora seu olhar crítico para reconhecer padrões de simulação. Isso altera a forma como a credibilidade é construída. O que antes passava despercebido hoje é rapidamente interpretado e até questionado dentro do próprio ambiente digital.
Nesse contexto, o risco passa a ser também competitivo. Marcas e sellers que dependerem em excesso de conteúdos sintéticos podem perder engajamento e enfrentar uma erosão gradual de credibilidade diante de uma audiência mais atenta, mais exigente e menos tolerante à distância entre o que é apresentado e o que é real. Assim, confiança passa a ter impacto direto não apenas na conversão, mas também na retenção e no valor de longo prazo da relação com o consumidor.
IIsso não significa rejeitar o uso da Inteligência Artificial. Pelo contrário. Em mercados baseados em confiabilidade, a transparência passa a ganhar ainda mais relevância conforme a automação avança. O ponto central da discussão deixa de ser a adoção da tecnologia e passa a ser como ela é aplicada na construção da percepção do produto.
No fim, o foco deve recair sobre a capacidade desse conteúdo de ainda sustentar credibilidade suficiente para influenciar decisões de compra e manter relações consistentes ao longo do tempo. Porque, no social commerce, confiança nunca foi apenas parte da experiência. Em muitos casos, ela é o próprio produto.
Fonte : https://gironews.com/opinioes/quando-o-produto-deixa-de-existir-o-risco-da-ia-no-social-commerce/