Automação, self-checkouts e contratação por hora estão entre as estratégias avaliadas pelo setor para enfrentar mudanças nas regras trabalhistas. Empresários alertam para possíveis impactos nos preços ao consumidor.
Os supermercados brasileiros buscam alternativas para reduzir os impactos financeiros das mudanças nas regras de jornada de trabalho e da possível redução da escala 6×1. Estimativas do setor apontam que as novas exigências podem elevar entre 15% e 20% os gastos com mão de obra, levando as empresas a avaliar investimentos em tecnologia, reorganização de equipes e novos modelos de contratação.
Embora a automação seja uma das alternativas consideradas, especialistas e representantes do varejo ressaltam que a tecnologia não elimina a necessidade de trabalhadores. A expectativa é que os recursos tecnológicos ajudem a aumentar a produtividade e a otimizar tarefas, sem substituir integralmente a atuação humana.
De acordo com Luis Fernando Laurenti, diretor comercial da Laurenti Elgin, a substituição de caixas tradicionais por equipamentos de autoatendimento pode gerar uma economia significativa. Em uma loja com quatro caixas convencionais, por exemplo, o custo mensal com os profissionais pode chegar a R$ 32 mil, considerando uma despesa estimada de R$ 4 mil por funcionário.
Com a adoção de quatro self-checkouts, esse valor poderia cair para aproximadamente R$ 8 mil mensais em mão de obra, uma redução de cerca de 75%. O cálculo considera a necessidade de dois funcionários para supervisionar os equipamentos em cada turno, totalizando quatro profissionais.
A economia, porém, depende do modelo de operação e dos custos de aquisição ou locação dos equipamentos. No caso de máquinas alugadas, com custo estimado de R$ 850 mensais por unidade, quatro equipamentos representariam uma despesa de R$ 3,4 mil. Somados os custos com pessoal e locação, o desembolso mensal seria de R$ 11,4 mil, ante R$ 32 mil do modelo tradicional — uma redução aproximada de 64%.
Na compra dos equipamentos, o investimento inicial estimado seria de R$ 20 mil por unidade, ou R$ 80 mil para quatro máquinas. Nesse cenário, a economia operacional precisaria ser avaliada em conjunto com o prazo de retorno do investimento.
Tecnologia ajuda, mas não resolve a escassez de trabalhadores
A rede Hirota é um exemplo de empresa que vem investindo em automação para enfrentar a dificuldade de contratação. Com 220 lojas, a varejista emprega aproximadamente 2,3 mil pessoas e registra um déficit de funcionários estimado em 12%.
Segundo Hélio Freddy, diretor da rede, a empresa já utiliza self-checkouts, mas não pretende ampliar a compra desses equipamentos exclusivamente para reduzir a necessidade de mão de obra. A estratégia também envolve avaliar a reorganização dos horários de trabalho e o funcionamento das lojas aos domingos.
Para Erton Ortega, presidente da Associação Paulista de Supermercados (Apas), a tecnologia contribui para tornar as operações mais eficientes, mas não elimina a necessidade de profissionais. Em setores como açougue, frios e padaria, por exemplo, a presença de trabalhadores continua indispensável para preparar, manipular e embalar os produtos.
O executivo também destaca o potencial de ferramentas de coleta de dados e inteligência artificial para melhorar a produtividade e a precisão das operações. Ainda assim, a redução da demanda por mão de obra tende a ser limitada em diversas atividades do supermercado.
Contratação por hora entra no debate
Diante dos desafios, representantes do setor defendem a discussão de modelos de contratação mais flexíveis, como o trabalho remunerado por hora, respeitando os direitos previstos na legislação trabalhista.
A proposta é permitir que os supermercados ajustem a quantidade de profissionais às necessidades de cada período, especialmente em horários de maior movimento e em dias específicos da semana.
Ortega avalia que essa modalidade poderia ajudar a preencher vagas e oferecer uma alternativa a pessoas que buscam flexibilidade para trabalhar. Segundo ele, há milhões de brasileiros na informalidade que poderiam se interessar por oportunidades com jornadas adaptáveis.
A discussão ocorre em um cenário de preocupação com a disponibilidade de trabalhadores e com os efeitos financeiros das mudanças nas jornadas. Para o setor, a possibilidade de reorganizar as escalas e contratar profissionais conforme a demanda pode contribuir para manter o funcionamento das lojas.
Repasse de custos aos preços preocupa o setor
O aumento das despesas operacionais também levanta preocupações sobre os preços dos alimentos e de outros produtos comercializados pelos supermercados.
José Pastore, economista e presidente do Conselho de Emprego e Relações do Trabalho da FecomercioSP, pondera que a automação pode ser uma alternativa para algumas empresas, mas sua adoção depende das características de cada negócio.
Além do investimento inicial, os equipamentos exigem recursos para aquisição, manutenção e atualização tecnológica. Esses custos podem representar obstáculos, sobretudo para empresas com menor capacidade de investimento.
Diante desse cenário, o setor avalia que parte do aumento das despesas trabalhistas poderá ser repassada aos preços. A dimensão desse impacto, entretanto, dependerá das condições de cada empresa, do nível de automação possível e da capacidade de absorver os novos custos por meio de ganhos de produtividade.
O desafio dos supermercados será encontrar um equilíbrio entre o cumprimento das regras trabalhistas, a manutenção dos empregos, a eficiência operacional e a preservação do poder de compra dos consumidores.