Consumo essencial sustenta o desempenho do setor, enquanto juros elevados e restrições ao crédito limitam as vendas de bens duráveis. No Rio de Janeiro, alta anual foi de 3,7%, abaixo da média nacional.
O varejo brasileiro apresentou leve retração em setembro de 2026, após três meses consecutivos de alta, mas manteve desempenho positivo na comparação com o mesmo período do ano passado. De acordo com a 45ª edição do Índice do Varejo Stone, o varejo ampliado recuou 0,3% em relação a agosto, enquanto o varejo restrito teve queda de 0,2%. Na comparação anual, entretanto, os indicadores registraram crescimento de 5,4% e 7%, respectivamente.
O resultado indica uma acomodação do ritmo de vendas na passagem de agosto para setembro, sem interromper a trajetória de expansão observada ao longo do ano. No terceiro trimestre, o varejo ampliado cresceu 6,3% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto o varejo restrito avançou 6,9%. Considerando o acumulado de janeiro a setembro, as altas foram de 4,7% e 4,8%, respectivamente.
O desempenho do setor ocorre em um cenário de fatores econômicos favoráveis e desfavoráveis ao consumo. De um lado, o mercado de trabalho aquecido contribui para sustentar as vendas. A taxa de desemprego ficou em 5,3% em agosto, o menor patamar da série histórica para o mês, enquanto a massa de rendimentos alcançou R$ 385,6 bilhões. De outro, o elevado comprometimento da renda das famílias com dívidas e o custo do crédito restringem o potencial de crescimento do comércio.
Segundo os dados apresentados na análise, o comprometimento da renda com dívidas atingiu 28,7% em julho, o maior nível da série histórica. A taxa básica de juros (Selic), por sua vez, estava em 13,75%, após cinco cortes consecutivos. A avaliação é que os efeitos mais relevantes da redução dos juros sobre a atividade varejista devem ocorrer apenas em 2027.
Consumo essencial apresenta melhor desempenho
A diferença entre os segmentos mais dependentes da renda e aqueles sensíveis às condições de financiamento ficou evidente nos resultados do terceiro trimestre. As atividades menos dependentes do crédito cresceram 9,7% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto os setores mais sensíveis às condições de financiamento avançaram apenas 2,8%.
Em setembro, a distância entre os dois grupos aumentou. Na comparação com o mesmo mês do ano anterior, os setores sensíveis à renda registraram crescimento de 10,2%, enquanto aqueles mais dependentes do crédito tiveram alta de apenas 0,4%.
Entre os segmentos analisados, combustíveis e hipermercados se destacaram. As vendas de combustíveis cresceram 13,4% em setembro, na comparação anual, enquanto o segmento de hipermercados avançou 11,9% e atingiu o maior nível da série histórica com ajuste sazonal. As farmácias também apresentaram resultado positivo, com alta de 4,8% em relação a setembro de 2025 e avanço mensal de 0,5%.
Na direção oposta, os segmentos de bens duráveis, construção e vestuário enfrentaram dificuldades. O setor de móveis e eletrodomésticos registrou queda mensal de 0,9% e retração anual de 0,5%. O segmento de materiais de construção apresentou recuo de 0,4%, tanto na comparação mensal quanto na anual. Já tecidos, vestuário e calçados tiveram o pior desempenho anual entre os oito segmentos avaliados, com queda de 4,4%.
Os resultados reforçam a influência das condições de crédito sobre as decisões de compra de bens de maior valor, que frequentemente dependem de financiamento ou parcelamento.
Varejo cresce em 26 estados brasileiros
O avanço anual das vendas foi disseminado pelo território nacional. Em setembro, 26 das 27 unidades da Federação registraram crescimento na comparação com o mesmo mês de 2025. Roraima liderou o desempenho, com alta de 19,6%, seguido pelo Acre, com 13,9%, e pelo Amazonas, com 12,1%. A única retração ocorreu em Mato Grosso, onde o indicador recuou 1,9%.
Na análise por regiões, o Norte apresentou o maior crescimento, de 10,2%, seguido pelo Nordeste, com 6,1%. O Sul registrou alta de 4,4%, enquanto o Sudeste avançou 3,9% e o Centro-Oeste, 3,4%.
Rio de Janeiro cresce abaixo da média nacional
No estado do Rio de Janeiro, o varejo restrito cresceu 3,7% em setembro, na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Embora o resultado seja positivo, ficou abaixo da média brasileira, de 7%, e ligeiramente inferior ao desempenho do Sudeste, que registrou alta de 3,9%.
Entre os estados da região, São Paulo apresentou crescimento de 5,2%, enquanto Minas Gerais avançou 5,7%. O Espírito Santo registrou alta de 1%, o menor crescimento entre as unidades da Federação, segundo os dados apresentados.
O desempenho fluminense precisa ser analisado à luz dos resultados dos meses anteriores. Em março, as vendas no estado haviam crescido 5,7%, ante 4% no Brasil, com avanço nas oito atividades do varejo. Em abril, a alta foi de 1,7%, enquanto o país registrou crescimento de 1%. Os indicadores de setembro, portanto, sugerem uma desaceleração do ritmo de expansão no segundo semestre.
A análise ressalta, contudo, que as fontes utilizadas para contextualizar a evolução do comércio fluminense adotam metodologias distintas, o que exige cautela nas comparações.
Indicadores do IBGE recomendam cautela na avaliação
O cenário nacional também apresenta diferenças conforme a metodologia empregada na medição da atividade varejista. Segundo a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o varejo restrito brasileiro cresceu 0,4% em agosto de 2026, na comparação com agosto de 2025, acumulando alta de 1,7% no ano.
Já o Índice do Varejo Stone apresentou crescimento anual de 7% para o varejo restrito em setembro. A diferença entre os resultados está relacionada às metodologias e às bases de medição utilizadas pelos dois indicadores, que não são diretamente equivalentes.
A comparação entre as fontes ajuda a dimensionar o cenário do setor e evita interpretações excessivamente otimistas sobre a evolução do consumo.
Gestão deve priorizar giro e controle da exposição ao crédito
Diante desse cenário, a análise elaborada pela JTB Consultoria recomenda que os varejistas mantenham atenção ao giro dos estoques e às condições de financiamento oferecidas aos consumidores.
Entre as prioridades de gestão estão a valorização de categorias essenciais, como supermercados, farmácias e combustíveis, que vêm apresentando desempenho mais consistente, e o acompanhamento criterioso das vendas de bens duráveis e materiais de construção, mais vulneráveis ao custo do crédito.
A trajetória da Selic também deve permanecer no radar das empresas, considerando que uma redução mais significativa dos juros pode levar tempo para se refletir nas decisões de consumo.
A perspectiva apresentada é de que, até 2027, a renda continue desempenhando papel central na sustentação do varejo brasileiro. Nesse contexto, compreender as diferenças de desempenho entre os segmentos e adequar as estratégias comerciais às condições econômicas será fundamental para preservar os resultados e aproveitar as oportunidades de crescimento.
Fonte: Índice do Varejo Stone — setembro de 2026, 45ª edição. Análise e resumo elaborados por Juedir Teixeira, PhD, da JTB Consultoria | Universidade do Varejo.