Momentum 1.195
A reeleição de Lula e a nova composição do Congresso abrem um período de redefinições políticas e econômicas locais que se somam às transformações estruturais que ocorrem no Brasil e no mundo.
O resultado eleitoral precipita uma outra etapa de negociações políticas, decisões econômicas e redefinição de prioridades que irá influenciar o ambiente de negócios pelos próximos anos e não encerra a disputa sobre os ruumos do País. E que será diferente em muitos aspectos, pois está encerrado o foco no imediatismo de uma reeleição.
Mas seria superficial analisar o futuro do varejo, do consumo e dos serviços apenas pela ótica da política local; as mudanças mais relevantes resultam da combinação entre fatores internos e globais, conjunturais e estruturais, que interagem e se contrapõem, criando outra realidade com suas oportunidades e ameaças.
Para condensar essa visão destacamos 12 temas que merecem atenção especial.
1. Governabilidade e Política
A relação entre Executivo e Congresso será determinante para a capacidade de aprovar reformas, administrar as contas públicas e construir um mínimo previsibilidade. A polarização política e a nova correlação de forças exigirão negociação e capacidade de articulação. Sempre lembrando a flexibilidade ideológica que verbas e benesses públicas podem comprar.
Para as empresas, mais importante do que a orientação partidária será a qualidade das decisões, a estabilidade das regras e a capacidade de construir políticas consistentes que os fatos recentes colocam dúvidas.
Em qualquer circunstância é preciso repensar o modelo de representação do setor privado para ampliar sua capacidade de apoiar projetos de natureza mais estratégica para o País.
2. Geopolítica e reorganização da economia global
As tensões entre grandes potências, as barreiras comerciais e a reorganização das cadeias de abastecimento afetarão preços, câmbio, fornecedores e concorrência.
A China continuará sendo um ator central – maior parceiro comercial do Brasil – tanto pela oferta de produtos e tecnologias quanto pela expansão de plataformas digitais e novos modelos de distribuição. E com crescente participação direta no mercado local.
O Brasil poderá encontrar oportunidades em novos mercados e cadeias produtivas, mas também enfrentará concorrentes com escala, tecnologia e estruturas de custos distintas.
A estratégia internacional deixará de ser assunto restrito às grandes multinacionais. Será parte crescente das decisões de empresas de diferentes portes pelo processo de maior inserção do Brasil na economia global como fornecedor e consumidor. E deveria focar cada vez mais na agregação de valor com marcas e distribuição às comodities de consumo que exporta.
3. Inteligência Artificial e nova competição
A IA está transformando a produtividade, a gestão, a cultura e o relacionamento com consumidores e, consequentemente, a tomada de decisões.
Seu impacto vai muito além da automação de tarefas. Agentes inteligentes modificarão o desenvolvimento de produtos, a comparação de preços, as compras e em especial a demanda por serviços.
A vantagem competitiva estará vinculada à capacidade de integrar tecnologia, dados, conhecimento do consumidor e capacidade de execução em outro ambiente cultural e atitudinal nas empresas e nos negócios e estará muito além de simplesmente adotar ferramentas ou plataformas.
4. Equilíbrio fiscal e custo de capital
A trajetória da dívida pública, a credibilidade fiscal e o comportamento dos juros continuarão influenciando o crédito, os investimentos e o consumo. Nesse campo abre-se o maior polo de incertezas, já que os discursos eleitorais se contrapõem às necessidades de curto e médio prazos. E por ser o último período de Lula na presidência, ficam, ainda, dúvidas sobre o legado que pretende deixar.
O custo do capital pós eleição e a reação no mercado financeiro afetam toda a cadeia de valor, incluindo indústria, distribuição, varejo, serviços e consumidores.
Em mercados com juros estratosféricos e margens pressionadas, crescer sem gerar caixa e retorno adequado sobre o capital significa ampliar problemas, em vez de construir negócios sustentáveis.
5. Renda, inflação e orientação para valor
O consumidor continuará sendo pressionado pela relação entre renda disponível, despesas essenciais, endividamento e custo do crédito.
A orientação para valor irá ampliar ainda mais sua importância, impulsionando desintermediação, marcas próprias, formatos econômicos, aumento de participação dos canais digitais, promoções e maior comparação entre alternativas.
Mas valor não é sinônimo de menor preço. Conveniência, qualidade, experiência, confiança e benefícios percebidos também determinarão escolhas.
O desafio será compreender um consumidor que economiza em determinadas categorias e mantém disposição para pagar mais por aquilo que considera relevante. Em especial em serviços e soluções.
6. Emprego, informalidade e desigualdade
A qualidade do emprego e a distribuição da renda serão tão importantes quanto o crescimento econômico agregado.
A informalidade, a instabilidade dos rendimentos e as diferenças regionais criam mercados consumidores muito distintos, exigindo propostas comerciais mais flexíveis e ajustadas à realidade de cada público.
Ao mesmo tempo, custos do trabalho, produtividade, qualificação e rotatividade pressionarão as empresas a repensar seus modelos operacionais agravados agora pela implantação de tudo que envolve a nova jornada aprovada de forma açodada e com fins eleitoreiros.
7. Reforma Tributária e produtividade
A transição tributária exigirá revisão de sistemas, contratos, preços, créditos fiscais e estruturas operacionais e com ainda muitas dúvidas pendentes de definição.
Seus efeitos não se limitarão à área fiscal. Poderão alterar a competitividade de categorias, canais, fornecedores e modelos de negócio.
Em um ambiente de pressão sobre margens, a capacidade de antecipar impactos, adaptar processos e melhorar a produtividade serão decisivos.
A questão envolve compreender como tudo isso modificará a economia de cada negócio, operação, região e não será apenas cumprir as novas regras. Sabidamente haverá no médio e longo prazos profunda e estrutural mudança logística e de potencial de consumo regional.
8. Omniconsumidor e transformação geográfica
Envelhecimento populacional, novas estruturas familiares, digitalização e mudanças de comportamento estão redefinindo necessidades e jornadas de consumo.
O consumidor transita entre canais, locais e globais, compara alternativas e combina conveniência, economia, experiência e personalização de maneiras diferentes conforme a ocasião.
A longevidade amplia oportunidades em saúde, alimentação, beleza, bem-estar, turismo, mobilidade e cuidados pessoais.
O desafio será superar a visão centrada em categorias e canais como os conhecemos e atentar para compreender necessidades, momentos de consumo e soluções relevantes que serão modificadas.
9. Reconfiguração do varejo e consumo pelos ecossistemas
A competição já não acontece apenas entre varejistas, fabricantes ou plataformas digitais. Ocorre entre modelos de negócio que integram comércio, serviços, logística, meios de pagamento, dados e relacionamento.
Marketplaces, marcas próprias, venda direta ao consumidor e retail media estão alterando as fronteiras tradicionais do mercado.
A ‘metafusão’ e a ‘metaintegração’ ajudam a interpretar essa aproximação entre atividades, competências e modelos antes separados.
A unidade de análise deixa de ser apenas a empresa e passa a incluir o ecossistema que ela consegue construir, participar, integrar e orquestrar.
10. De produtos a serviços e soluções
A venda de produtos continuará relevante, mas poderá representar apenas uma parte do valor demandado e entregue ao omniconsumidor empoderado pela IA.
Manutenção, instalação, assistência, conveniência, serviços financeiros, saúde, beleza, cuidados pessoais, alimentação e experiências geram novas possibilidades de receita e relacionamento.
Para a indústria, o varejo e o consumo, de forma geral, o desafio será identificar necessidades que possam ser atendidas por ofertas integradas e economicamente sustentáveis em um cenário onde o consumidor está pressionado como nunca pelas questões que envolvem renda, endividamento e desconfiança.
Nesse quadro, o foco deve ser construir soluções que ampliem o valor percebido, a recorrência e a rentabilidade.
11. Segurança, confiança e resiliência
Criminalidade, fraudes, riscos cibernéticos e insegurança operacional afetam custos, pessoas, consumidores e decisões de consumo e investimento.
A operação de lojas, canais, centros de distribuição, sistemas e cadeias de abastecimento exigem abordagem diferenciada, combinando tecnologia, processos, gestão de riscos e com visão cada vez mais sistêmica e integrada.
Segurança e confiança são condições para desenvolvimento das operações e para a qualidade da experiência oferecida ao consumidor, e não apenas despesas defensivas..
12. Clima, energia e recursos naturais
Eventos climáticos, disponibilidade de água, custos energéticos e mudanças nas cadeias de abastecimento irão alterar preços, oferta de produtos e condições operacionais.
Para o varejo alimentar, a indústria e os serviços, esses fatores exigirão maior atenção à origem dos produtos, à eficiência energética, à logística e à integração em modelos mais avançados com os fornecedores.
A sustentabilidade precisará ser tratada como variável econômica e estratégica, conectada à produtividade, à gestão de riscos e à competitividade até por conta da maior consciência dos consumidores com esses temas.
Administrar a conjuntura ou transformar os negócios?
O reequilíbrio de forças envolvendo os três poderes poderá desenhar um quadro bem diferente ao que tivemos até agora, mas isso só poderá ser melhor avaliado a partir dos movimentos táticos e estratégicos que serão melhor entendidos com a visão da realidade e sem o impacto dos discursos pré-eleição.
Juros e renda influenciarão o consumo. Geopolítica e câmbio afetarão custos e abastecimento. Inteligência Artificial e demografia criarão necessidades e novos modelos de negócio. A política local determinará parte das condições em que essas transformações ocorrerão.
Essas 12 forças não atuam isoladamente. Como tem acontecido, elas interagem entre si de forma contínua e abrangente; e nesse novo ciclo poderão ser reconfiguradas de forma ainda não totalmente conhecida. E não existem fórmulas prontas e aprovadas para cenários nesse nível de transição.
O desafio será distinguir aquilo que exige respostas imediatas e táticas daquilo que demanda mudanças estruturais.
No curto prazo, proteger caixa, rever custos, buscar melhoria de margens e produtividade serão essenciais. No médio prazo, será necessário rever posicionamento, canais, portfólios e novas fontes de receita. No longo prazo, a capacidade de integrar tecnologia, serviços e dados em ecossistemas irá redefinir a própria natureza dos negócios.
O Brasil, por conta de seus ativos estratégicos (e mesmo após o resultado desta eleição), oferece inúmeras oportunidades, mas não tem conseguido minimizar suas fragilidades.
O cenário macro amplia possibilidades, mas também intensifica e internaliza a concorrência global.
Nesse ambiente, não será suficiente esperar que a economia avance, que os juros caiam ou que o governo encontre seu caminho. A sociedade, liderada pelo setor empresarial precisa entender que tem que ter voz ativa e atuação decisiva na transformação estratégica.
A vantagem estará sempre com quem consegue antecipar as mudanças, entender a correlação de forças no mercado reconfigurado, compreender melhor e mais rápido o emergente omniconsumidor empoderado pela IA e transformar incertezas em melhores e mais rápidas decisões.
Fonte : https://mercadoeconsumo.com.br/