Rede dinamarquesa Føtex testa tecnologia para automatizar o abastecimento noturno das gôndolas; iniciativa aponta novos caminhos para a produtividade, a gestão de estoques e a organização do trabalho no varejo alimentar
A utilização de robôs humanoides em supermercados começa a deixar o campo da experimentação tecnológica para ganhar aplicações práticas no varejo. Na Dinamarca, a rede Føtex, pertencente ao Grupo Salling, está treinando robôs para realizar a reposição de produtos nas prateleiras durante o período noturno. O projeto é desenvolvido em parceria com a startup dinamarquesa HIVE Robots e busca automatizar atividades repetitivas, liberando os funcionários para funções que exigem maior interação com os consumidores e capacidade de decisão.
A iniciativa representa um novo estágio na automação do varejo alimentar. Depois de avanços em logística, separação de pedidos e caixas de autoatendimento, a robótica e a inteligência artificial começam a chegar diretamente ao ponto de venda, com potencial para modificar processos operacionais e a dinâmica de trabalho nas lojas.
Os testes estão sendo realizados em uma unidade da Føtex em Lyngby, ao norte de Copenhague. A HIVE Robots é responsável pelo desenvolvimento do software e pelo treinamento dos equipamentos, enquanto a fabricação do hardware fica a cargo da empresa chinesa Unitree.
O aprendizado das máquinas começa com a orientação de operadores humanos, que utilizam óculos de realidade virtual e controles para demonstrar os movimentos necessários à execução das tarefas. As informações coletadas durante essas demonstrações são utilizadas para treinar a inteligência artificial, permitindo que os robôs reproduzam as operações de forma autônoma.
Embora a atividade pareça simples − retirar um produto, transportá-lo e colocá-lo na prateleira correta −, a reposição envolve diferentes desafios. As embalagens apresentam formatos, tamanhos e níveis de fragilidade variados, enquanto as gôndolas podem estar parcialmente ocupadas e exigem precisão na organização dos produtos.
Produtividade e disponibilidade de produtos
Um dos principais fatores que justificam o investimento nessa tecnologia é o tempo dedicado à reposição. Segundo estimativa da Føtex, a atividade consome entre 40% e 50% da jornada de trabalho dos funcionários das lojas.
A automatização desse processo pode representar uma oportunidade para melhorar a produtividade e permitir que as equipes concentrem esforços em outras demandas, como atendimento ao consumidor, organização do estabelecimento e resolução de problemas operacionais.
No entanto, a adoção de robôs não significa, necessariamente, redução automática dos custos com mão de obra. O benefício econômico dependerá da capacidade de os equipamentos executarem as tarefas com velocidade, precisão e autonomia suficientes para gerar ganhos efetivos.
Entre os indicadores que deverão ser considerados estão o volume de produtos repostos por hora, o custo operacional por tarefa, a frequência de erros, a necessidade de intervenção humana e a disponibilidade dos itens nas prateleiras.
Operação noturna facilita os testes
A escolha do período noturno para iniciar os trabalhos tem uma justificativa operacional. Com o supermercado fechado, há menos circulação de pessoas e interferências, o que facilita a organização das atividades, a delimitação das áreas de trabalho e o acompanhamento do desempenho das máquinas.
A reposição durante a noite também pode preparar a loja para a abertura, reduzindo o volume de tarefas que os funcionários precisam executar nas primeiras horas do expediente.
A HIVE Robots pretende que, no início de 2027, os equipamentos já consigam repor determinados produtos de maneira autônoma durante a noite. O prazo, entretanto, representa uma meta da empresa, e não uma confirmação de que a tecnologia estará pronta para adoção em larga escala.
Robôs poderão desempenhar outras funções
O projeto prevê ampliar as funcionalidades dos equipamentos para além da reposição. Entre as atividades em desenvolvimento estão a identificação de espaços vazios nas prateleiras, a detecção de produtos colocados incorretamente, a retirada de caixas de papelão vazias e a verificação de datas de validade.
Essas possibilidades apontam para um modelo de supermercado mais integrado, no qual robôs, inteligência artificial e sistemas de gestão trabalhem em conjunto. A identificação de uma gôndola vazia, por exemplo, poderá gerar informações sobre a disponibilidade do produto e acionar uma nova reposição.
Para que isso aconteça de maneira eficiente, será necessário integrar os equipamentos aos sistemas de estoque e gestão das lojas, permitindo identificar se há mercadorias disponíveis no depósito ou se o produto está efetivamente em falta.
Custo-benefício será decisivo para a expansão
O modelo comercial proposto pela HIVE Robots prevê a cobrança pelo número de horas de utilização dos equipamentos. A modalidade pode reduzir a necessidade de investimentos iniciais elevados por parte dos supermercados, transferindo parte da complexidade tecnológica para o fornecedor.
Isso não significa, porém, que a contratação do serviço garanta economia. A viabilidade dependerá da comparação entre o custo da operação robotizada e os gastos envolvidos no processo convencional, considerando manutenção, consumo de energia, disponibilidade dos equipamentos e necessidade de supervisão humana.
Características de cada estabelecimento, como área de vendas, giro dos produtos, variedade do sortimento e configuração do estoque, também influenciarão os resultados.
Tecnologia deve complementar o trabalho humano
O Grupo Salling afirma que a proposta do projeto é apoiar os funcionários, e não substituí-los. A companhia também aponta dificuldades para contratar trabalhadores mais jovens para determinadas atividades de reposição.
A automação poderá reduzir a exposição das equipes a tarefas fisicamente exigentes e permitir maior dedicação a atividades que dependem de atenção, julgamento e contato com o consumidor. Ainda assim, os efeitos sobre o dimensionamento das equipes não podem ser descartados e dependerão dos ganhos de produtividade e das decisões de cada empresa.
Nesse cenário, a capacitação dos profissionais para trabalhar com sistemas automatizados e supervisionar equipamentos deverá ganhar importância. O desafio para as áreas de operações e recursos humanos será adaptar processos e preparar as equipes para uma rotina que combine pessoas e máquinas.
Experiência pode servir de referência para o varejo europeu
O Grupo Salling opera mais de 2,1 mil estabelecimentos em seis países europeus. Pela dimensão da companhia, o projeto da Føtex poderá oferecer referências importantes para avaliar o potencial de expansão da robótica humanoide no varejo alimentar.
Segundo Simon Kudsk, diretor de operações da Føtex, a implementação em toda a rede poderá levar até cinco anos. A perspectiva de longo prazo considera a presença de um ou dois robôs humanoides por estabelecimento.
A experiência dinamarquesa demonstra que a automação começa a avançar para atividades diretamente ligadas à operação das lojas. Entretanto, desafios relacionados à velocidade, autonomia, integração tecnológica e viabilidade econômica ainda precisam ser superados.
Para o varejo alimentar, a tendência aponta para um futuro em que a inovação não estará restrita aos centros de distribuição e à logística. O próprio ponto de venda deverá incorporar soluções capazes de melhorar a produtividade, ampliar a disponibilidade de produtos e reorganizar processos operacionais.
O cenário mais provável, ao menos no médio prazo, não é o de supermercados totalmente robotizados, mas de operações que combinem profissionais, sistemas digitais e máquinas especializadas. A adoção dessas tecnologias dependerá, sobretudo, da capacidade de gerar resultados concretos e melhorar a experiência de compra.
Fonte: FRS – Food Retail Solutions – https://www.foodretail.es/blogs/robots-reponedores-de-supermercado-un-futuro-no-tan-lejano.html